segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Sonhos Impublicáveis
Certa vez, alguém me disse: "O que tu esperas da vida? Que de repente algo lindo aconteça e tu saias deslizando por um mundo macio?".
Por que não?
Eu não posso sonhar com isso? Posso e quero, sim, idealizar um mundo macio em que eu possa deslizar, onde as coisas boas acontecem em detrimento das más. Quero poder ficar imaginando que, mesmo eu tendo a felicidade que mereço, algo estupendo irá acontecer, algo que me pegará de surpresa e eu serei só arrebatamento. Tenho o direito de fantasiar o que eu quiser, mesmo eu estando com noventa anos. Mesmo estando feliz em um relacionamento, eu gosto de me ver em sonhos de contos de fadas, onde o meu salvador é perfeito (mesmo eu não sendo), onde só existe amor, dias ensolarados e passeios de mãos dadas. Posso e quero idealizar uma versão brilhante de mim mesma, ganhadora de um Pulitzer, assinando orelhas de livros, vivendo daquilo que mais amo fazer. Deixa eu amaciar a dureza da vida, piscando para a criança boba que em mim habita. Se posso deitar à noite e viajar por países que ainda não conheço, experimentar satisfações inofensivas em devaneios, vou eu escolher pensar em eleições, roubalheiras, injustiças? É preciso sentir vergonha por se ter sonhos, que de tão remotos, se tornam pueris? Pois não tenho. De olhos abertos, imagino cada detalhe do sítio que abrigará meus animais de rua, cada casinha, cada telhado. Aí, no final do dia, depois do trabalho que amo, vou lá acariciar o pêlo arrepiado de algum cão ou gato que tenha sido abandonado, mas que esteja agora redondo e perfumado. Vou, de olhos abertos, imaginar o mundo que eu quis para mim, sendo herdado pelas minhas filhas, que levarão meus netos em visita e me contarão como as coisas andam bonitas, seguras e felizes. E vamos comer bombons e as crianças vão folhear cada livro por mim publicado e perguntar: "Esse aqui é o teu preferido, vovó?". E vou estar feliz e de mãos dadas, não com o príncipe que vez ou outra me salvava, mas com o homem que sempre foi meu amigo de verdade.
Sim, eu posso ter sonhos impublicáveis de tão descabidos, mas são meus e são deles a minha alma.
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