Quando conheci meu marido, eu recém havia feito um permanente nos cabelos e eles estavam deliciosamente crespos, como eu sempre sonhei. Começamos a namorar e ele me confessou que amava cabelos lisos, portanto resolvi deixar os meus crescerem - adeus cachos. Quando, depois de muito tempo e muitas aparadas nas pontas, meus cabelos finalmente estavam escorridos, ele rasgou elogios para os lindos cabelos de uma amiga. Adivinhem? Crespos. Pois é, hoje acho graça, mas minha loira cabecinha de outrora ficava toda confusa, até eu amadurecer (ah, a maravilhosa maturidade!) e entender que homem adora reclamar de coisas que nem eles sabem direito opinar, mas que lhes confere autoridade e controle. Porém, por mais que mudemos para satisfazê-los, nunca conseguiremos ser exatamente tudo o que eles esperam de nós (ainda bem), pois as expectativas não condizem com a realidade, mas com fantasias suprimidas e inconscientes de uma mulher ideal e inexistente. Na verdade, estas intromissões no modo como nos vestimos, na cor dos nossos esmaltes, no corte do nosso cabelo, são pequenas manisfestações que lembram à eles mesmos o quão Machos Alfa eles podem ser. Já vi muitos homens brigarem por causa das unhas vermelhas das namoradas e elogiarem as mãos alheias enfeitadas de vermelho vivo.
Tudo isso me lembra a cena de um filme, estrelado pelo ator Eddie Murphy - Um Príncipe em Nova Iorque - onde, antes dele partir para uma viagem onde iria encontrar o amor da sua vida, ele e sua lindíssima noiva, batem um papo revelador, na intimidade de uma salinha.
Acontece mais ou menos assim: Ele, arrebatado pela beleza da jovem pretendente, a chama em particular para conhecê-la melhor - seus gostos, sua personalidade. Ele pede para ela revelar suas preferências e ela afirma gostar de tudo o que ele gosta. Porém, ele é insistente e pede que ela apenas defina alguma coisa, mas ela insiste na resposta :"Gosto do que você gostar". Já assustado e indignado, em um teste final, o rei pede para ela imitar um macaco - imediatamente ela começa a pular, a coçar a cabeça e a guinchar. É nesse momento que ele decide cair fora.
Não existe beleza ideal, personalidade ideal, relacionamento ideal - existem pessoas com gostos divergentes, personalidades complementares que devem, sim, muitas vezes mudar para agradar, mas que devem sempre tomar muito cuidado para, cada qual, respeitar as suas individualidades, sem sinal de rancor possessivo.
É o que você realmente quer? Vá em frente. Está em dúvida? Não custa acatar uma simples opinião, se for para fazer um agrado.
E isso vale para cada esmalte de unha, saia curta, cabelos lisos ou crespos ou grandes decisões - tudo que pode ou queira ser mudado - tudo que interfira na sua felicidade individual ou que possa ser aceito para melhorar a felicidade a dois.
Eddie Murphy acaba no filme com uma mulher muito diferente da deslumbrante princesa - uma plebéia cheia de personalidade.
Que sirva de lição.

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