sábado, 8 de setembro de 2012

A Árvore dos Sonhos


Então, devagar ela se aproximou da Árvore dos Sonhos, que era cuidada por um cisne azul cintilante.
A Árvore se erguia frondosa da terra, com um tronco denso cheio de nós e uma copa que brilhava, reluzindo sonhos brotados em galhos.
"Tenho o direito de escolher algum?" - perguntou a moça de saia rodada e laço no cabelo, que vinha do mundo que não tinha árvores.
"Os sonhos são muitos, pode escolher qualquer um. " - disse a ave.
"Mas, sabe, não sei escolher sonho, pois nunca tive algum."
"Existem muitos que não tiveram sonhos, menina, mas quando se aproximam da Árvore, sabem reconhecer o seu, mesmo ele estando escondido entre os galhos."
"Por que eles não tiveram sonhos?"
O cisne ajeita as imensas asas no corpo e fita a menina com olhos de bolitas marrons:
"Porque Os Adormecidos não sonham acordados, eles realizam tudo no descanso dos seus olhos. Mas para se ter sonhos de verdade é preciso acordar, caminhar até a Árvore e pegar o seu."
"Mas é muito longe, fiquei tão cansada."
O cisne dá uma risada, quase um grasnado:
"Vocês da Terra sem Árvores não sabem escolher sonhos de verdade, porque vocês querem apenas as coisas fáceis e sonhos de verdade são difíceis de alcançar. "
"Por serem longíquos?" - pergunta a menina.
"Não, por serem especiais. As coisas especiais sempre se escondem de vocês, porque se estivessem a disposição, se fossem muito fáceis perderiam o encantamento e ninguém as consideraria especiais, mas banais. Por exemplo: a chuva é muito especial e é um sonho para as plantas e as flores. Para vocês só é sonho quando, ofendida, ela para de acontecer."
"Eu quero um sonho para mim."
"Feche os olhos e tente ver o que você queria quando ninguém estava lhe julgando. O que As Vozes lhe diziam quando você não as silenciava com os seus planos. Agora, de olhos fechados, estique o braço."
O braço da menina se esticou, os seus dedos se abriram e ela pôde sentir o vento suave do farfalhar da Árvore quando conseguiu envolver com a mão um sonho brilhante.
Ela o levou até o peito, o reconheceu e chorou:
"Não era este que eu esperava pegar" - disse engolindo um soluço.
O cisne azul apenas sorriu.
Na Terra sem Árvores, a menina de laço no cabelo guardou o sonho que não queria no armário.
E muito tempo se passou. Ela teve muitos outros sonhos - não os da Árvore dos Sonhos - realizados em suas mãos e se tornou uma mulher. Esqueceu-se do cisne e de seu sonho guardado e tratou de viver os sonhos mais fáceis, os que ela esperava, os que ela sabia serem seus.
Um dia, a mulher que já havia tido um laço no cabelo e que havia esquecido do cisne azul ficou com receio de envelhecer, pois tinha muito medo do espaço vazio que ela tinha preenchido com coisas invisíveis. Cansada, foi remexer nas fotografias antigas, relembrar tempos passados em um presente que não a fazia sentir-se viva.
Então, escondido no armário, difícil de ser achado e reconhecido, estava seu sonho. O brilho era ofuscado por muitas camadas de pó, mas ele ainda aquecia sua mão, ao ser pego. Ela assoprou forte. Ele voltou a brilhar. Ela o reconheceu e sorriu. Um riso de aceitação e de lembrança:
"Não, por serem especiais. As coisas especiais sempre se escondem de vocês, porque se estivessem a disposição, se fossem muito fáceis perderiam o encantamento e ninguém as consideraria especiais, mas banais. Por exemplo: a chuva é muito especial e é um sonho para as plantas e as flores. Para vocês só é sonho quando, ofendida, ela para de acontecer." 
A menina que já era mulher pegou seu sonho de verdade e conseguiu finalmente ser feliz.
O cisne, com suas imensas asas, ao lado da Árvore dos Sonhos, sorriu.

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