segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Ilusões
E o presente era tão igual que parecia sempre um passado, mas não aquele.
Um vinco novo no reflexo do espelho do banheiro era sinal da sucessão do tempo. E quando ele via, era inverno e primavera e ele pensava como os meses escoavam feito areia entre os seus dedos.
Ontem ele tinha amado e hoje todos os seus amores estavam espalhados, sendo vidas distintas, distantes, longínquoas. Como ele podia ter perdido tanta coisa, na pressa de resolver a lentidão da sua vida elaborada para dar certo? Seus valores trincados o levaram à uma casa vazia, sem odores de panelas, sem flores, sem os gatos deitados na janela.
E tudo que ele tanto odiava, agora fazia tanta falta na sua rotina asseada, estéril, imaculada de bagunça, risos, alvoroço, latidos, conversas, barulho de portas e secador de cabelos. O que o havia exaurido, agora seria calor para a existência cheia de ternos organizados com esmero no armário vazio daqueles sapatos coloridos e enfeitados, que viviam bagunçados e que eram motivo de tantas brigas.
E agora ele é um rosto no Facebook e pode finalmente ter aquele monte de amigas, pois mente a idade e diz que gosta de esportes, de praia e de vinho branco gelado.
E agora que o dinheiro sobra, ele já não anseia por todas aquelas viagens e o mais longe que vai, é através das muitas fotografias que lhe arrancam sorrisos sôfregos e algumas lágrimas que chegam frias ao seu pescoço.
Então ele resolveu pegar este tempo presente que era promessa de liberdade, que era sonho e meta e fazê-lo passado, não com os ponteiros do relógio, mas com os acertos que ele pensava serem erros.
Não um passado qualquer, mas aquele.
Aquele que via feio.
Aquele que o sufocava.
Aquele que quando ele conseguiu resgatar a tempo, o salvou de morrer afogado no seu próprio oceano de ilusões.
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