Ele tinha um passado. Todos tem.
Desse passado lembrava pouco porque lembrar fazia sangrar muita coisa.
Lembrar era como mexer em ferida aberta, reconhecer uma pessoa que ele não era mais. Foi.
Ele sabia que tinha cometido tantos erros, mas ele os tinha colocado em algumas gavetas para poder conseguir tocar a vida. Porque é bom esquecer coisas doídas, é bom passar um lápis branco por cima, para elas ficarem esmaecidas e perderem a grandeza que faz delas monstros horrendos.
E assim ele continuava sendo aquele que era antes de se transformar naquilo que detestava.
Pois, naquele passado medonho, apesar de toda a vida focada para se tornar alguém de respeito, ele ouvia uma pequena voz que sussurrava palavras abafadas através de suas entranhas.
E nas mesas de restaurantes, bebendo dos melhores vinhos, a voz lhe chegava aos ouvidos para estragar seus planos cheios de decência. Era quando a batalha dentro dele começava. Uma batalha que ele já sabia ser perdida, mas que não iria jamais considerar acabada.
Um dia ele descobriu que podia renascer. Todos podem.
Porque uma vez homem, certos valores haviam se grudado à sua pele. E ele tinha consciência de ter essa pele e um coração. E essa pequenina noção de existência foi ponte na travessia e de abandono do lado que o fazia doente.
E assim ele renasceu de um buraco fundo, mas não sem saída.
E ele passou a crer.
Na vida.
Nas coisas que estão escritas, mas não podem ser lidas.
Nas teorias que julgava pueris e pequenas.
Em Deus.
Em todas as pequenas mensagens que recebia da vida e que não tinha tempo de decifrá-las.
E ele passou a crer.
Em milagres.
Em mudanças.
Em virtudes.
Em si.

Nenhum comentário:
Postar um comentário