domingo, 22 de junho de 2014
Tempo de Renascer
Já falei sobre a sensação de não se ter mais a metade da vida pela frente para viver.
Não existirei por mais 47 anos, não mesmo. E se existir, vou estar tão pra lá de Bagdá que nem vou saber que respiro e uso fraldas.
Chegar perto dos cinquenta, para uma mulher, é como entrar na adolescência. Os hormônios gritam em frenesi, se debatendo e perguntando que raios de tantas mudanças, peloamordedeus?
A puberdade feminina é cheia de medos, dúvidas, vontades reprimidas, raiva do mundo, fome de comer paredes. Sem sal.
Tudo começa a crescer e aparecer, seios, pernas, anseios, percepção de que se está finalmente entrando na vida real. Sem Barbies, nem fadas, nem nada que explique o monte de coisas que nem a gente sabe explicar.
Pois esse chamado climatério é um semi-inferno bem parecido.
Vemos o rosto despencar em algumas camadas de pele desobedientes (algo como os bicos dos seios nas camisetas do colégio), as vontades mudarem, as dúvidas e questionamentos sobre a vida surgirem com a velocidade de um temporal.
Voltamos a não saber o que queremos, mas temos certeza do que não queremos.
Não queremos ser infelizes no tempo que nos resta, antes que os nossos joelhos doam, as nossas costas se curvem, a nossa libido suma, os nossos cabelos fiquem mais escassos, a nossa pele se resseque e a nossa vontade de sugar a vida se interrompa.
Não precisamos mais decorar fórmulas de física, nem dar satisfação aos pais, nem termos horários para ir e voltar, muito menos precisamos fingir agrado no que nos desagrada.
Porque é agora ou nunca.
Não vai dar mais para protelar.
A revisão do texto, a correção do script (se tiver correção) tem que ser feita com carinho, pois as mudanças serão mais escassas com o tempo que urge.
Não dá mais tempo para algumas coisas, mas para muitas.
Dá tempo de finalmente se olhar quando só olhamos os outros ou enxergar os outros quando só enxergamos à si mesmas.
Dá tempo de amar de novo ou de novo amar. De ter bebês no colo, filhos dos nossos filhos. De cortar o cabelo e deixar crescer, pois ainda há crescimento enquanto se vive.
Em todos os aspectos.
Dá tempo de finalmente ter coragem.
De aceitar que se é finita.
Mas eterna enquanto a finitude dessa compreensão não bater na nossa porta.
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