segunda-feira, 9 de junho de 2014
Surdez como Alívio
Nunca pratiquei mergulho.
Tenho uma certa fobia de água, sabe-se lá porquê.
Mas entendo perfeitamente quem reencontra à si mesmo nas profundezas dos oceanos. Quem busca o silêncio, os movimentos lânguidos, a luz difusa de imagens surreais. É se esconder do tumulto de um mundo obtuso, histérico, apressado e pouco acolhedor. É voltar para o útero e seu aconchego.
Não pratico mergulho, mas anseio desesperadamente por silêncio total, de vez em quando.
Um sonho de consumo, visto que moro em uma rua que era para ser tranquila, mas acolhe todos os motoristas neuróticos que trituram os paralelepípedos na voracidade de suas rodas com a intenção de despejar as suas crias no colégio João Paulo.
Visto que moro em uma bairro cheio de cães de guarda, que acuam a noite inteira ao menor rastejar de uma lagartixa.
Mas o sofrimento com tanto estímulo, vez ou outra, me impede de descansar a alma.
Eu preciso escutar os meus pensamentos para entendê-los.
Eu preciso de um sono pouco interrompido para poder colocar os meus pés no chão do amanhã com vontade de sobra.
E mais que tudo, preciso do silêncio que alcanço longe das pessoas com todas essas suas políticas podres, essas cruezas indigestas, essas maluquices escondidas atrás de uma boa aparência e um belo estilo de vida.
Às vezes, eu gostaria de hibernar para recuperar os radicais livres e evitar outras tantas radicalidades que vejo e vivo.
Às vezes, eu precisaria apenas ouvir a batida rítmica do meu coração, o som do meu inspirar e expirar e imaginar aquele monte de peixinhos coloridos e anêmonas que dançam, indiferentes ao aumento do dólar.
E até desejar o sol que vejo difuso lá em cima, mas que debaixo das águas é impossível de queimar.
Sou tão neurótica como todos, se me sacudirem bastante sei que um parafuso ou outro sairá voando pelos ares, escorrego, enfio os pés pelas mãos, erro.
Mas eu preciso desse amado silêncio absoluto e etéreo até para poder me aguentar.
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