sexta-feira, 20 de junho de 2014

Formiguinhas Prepotentes


Eu sou otimista e crente. Creio sempre naquele melhor que virá, na justiça, no triunfo do bem, nas lágrimas de felicidade derramadas enquanto o letreiro do filme corre, subindo na tela e assinando com louvor aquele enredo que se finaliza com a frase não dita :"Viu? Tudo acaba bem, mesmo depois de tantos braços e pernas decepadas, crânios rachados, gritos de horror".
Sou assim e pronto. Nasci para ser resiliente, e como!
Mas muitas vezes me pergunto se a tal cegonha me jogou no Planeta certo. Ou na época, pois por maior esforço que eu faça, eu simplesmente não consigo entender o meu semelhante.
Não consigo!
E a minha incompreensão não se trata só das grandes mazelas como o holocausto, as guerras, a violência, a crueldade, mas das pequenas grandes manifestações de vida como o afeto, os amores, amizades, honestidade, confiança, alegrias, retribuição, reconhecimento, que seriam tão óbvios se não fossem distorcidos por algo que não compreendo.
Algo que vai além do instinto de sobrevivência, do instinto maternal, paternal, sexual. Básico.
Alguma coisa que faz retroceder toda a grandiosidade dos descobrimentos e avanços à um âmago primitivo que ainda se alimenta de preconceitos, racismo, incongruências, incoerências.
Eu poderia estar aqui escrevendo sobre politica, futebol, elite branca, essas coisas que vendem, sabe como é.
Mas não sou paga, graças à Deus (e não tão graças assim, pois adoraria viver disso), então tenho a liberdade de escrever sobre esse tudo que é a doença humana e que acaba virando elite branca, futebol exacerbado, política em decomposição, racismo, machismo, feminismo, homofobia e tal, o fim sem cura, pois não se sabe o motivo.
Não sou superior aos meus semelhantes, caso contrário estaria pilotando alguma nave espacial e rindo de tanta  mulher fruta e homem com implante de cabelos. Ou, quem sabe, estaria batendo as minhas asas brancas na hora que algum pai de família resolvesse ir embora dirigindo, depois de um happy hour regado à Jack Daniels.
Não, estou aqui, chorando pelos cães jogados das janelas, crianças sendo molestadas, andarilhos congelando nas noites frias, palavras de ódio que me foram jogadas feito flechas, lembranças nada boas de pessoas que não posso ajudar.
E por mais que surjam as curas para as doenças, a capacidade de voos interestelares, os automóveis e casas inteligentes, ainda não teremos descoberto o principal.
Aquilo que nos prende.
Limita.
E nos faz tão racionais quanto trogloditas.
Formiguinhas metidas à besta neste espaço sideral.

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