quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Luzinhas de Natal
Quando pequena eu tinha uma fixação em olhar para as casas à noite, prescrutando as luzes de dentro, vendo silhuetas de móveis, de pessoas, de televisões e vidas ligadas.
A visão do espaço onde a intimidade de cada um acontecia, me enchia de aconchego, de uma sensação perdida, não minha, mas que existia e preenchia um rombo imenso do meu peito.
Em algum lugar eu acharia aqueles lugares que me fariam sentir em casa.
Em algum lugar existiam luzes amareladas, pianos, gente sorrindo em volta de uma mesa de jantar, cortinas derramadas feito cascata, abertas e em paz.
Hoje tenho essas luzes, esses cenários e preciso bebê-los feito água para estancar uma sede que foi saciada aos poucos e acordou o meu corpo para tudo de bonito que a gente vê quando se está quase morrendo sem água.
Essas luzes que são meu jardim sempre verde, meu cão que alguém jogou magro e feio no lixo, cheio de vida e beleza e lambidas e pulos e faróis de esperteza e reconhecimento nos olhos.
Essas luzes que são as vidas que se entrelaçam com as minha, levantado da mesa, "puxa, estava bom, mãe", saciadas de estar junto, dividindo talheres e temperos.
Essas luzes que são cada lâmpada que enfeita a minha árvore de Natal, a fachada da minha casa e avisam: Sim, aqui ainda se acredita!
E quando me dizem para parar de enfeitar a árvore e repôr as tantas luzinhas queimadas e se preocupar menos com aquelas que, puxa já é noite e ainda não foram ligadas, eu sei.
Ninguém pode viajar comigo em cada lugar escuro que já estive.
Então eu entendo.
Mas deixarei a minhas luzinhas sempre brilhando.
Por mais que queimem.
Deixarei o meu jardim sempre verde.
Por mais que o sol tente secá-lo.
Olharei todos os dias para cada cão que tirei das ruas, cada pássaro que me pediu abrigo, cada planta velha que eu insisto em ressuscitar.
E terei aquilo que sempre vi de longe.
E que consegui trazer para o meu coração.
Agora, sem mais apenas olhar e desejar.
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