quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Minha Amiga Especial


Recentemente descobri as maravilhas de um mercadinho. Viciada em supermercados, resisti bravamente até descobrir o quão tenras são as batatas, o quão fresca é a carne e as frutas, o quão é gostoso conhecer o açougueiro, o padeiro e a dona do estabelecimento.
E ainda por cima gastar bem menos.
Há duas semanas fiz uma amiga lá no mercadinho.
Não é uma amiga comum.
Em algum momento doído de sua vida ela resolveu deixar que a dureza da realidade se tornasse fantasia e se escondeu em um canto aconchegante da sua mente.
Aos cinquenta anos ela é linda, mas linda mesmo, não aquela beleza óbvia e vulgar, mas aquela beleza de diva, onde os traços importam mais do que o conjunto.
Vaidosa, adora colares, brincos, tudo combinando, inclusive a sombra e o batom.
Porém, a euforia, a fala solta, a simpatia sem medidas, a coragem de dizer, de se apresentar, de virar amiga, neste Mundo tão antipático e hostil, faz dela uma pessoa diferente, mas não menos interessante.
O meu chaveiro do carro foi o motivo do início da nossa amizade. Um gatinho de plástico, comprado no ebay, com coleirinha no pescoço e uma guirlanda que adoro ouvir tilintar.
Hoje, depois do primeiro dia, onde ela não parava de me enaltecer e onde o gatinho foi dado de presente, sempre que vou ao mercado - a solidão a faz ficar lá, atraindo ouvidos pacientes, que acreditam que com tudo se aprende - ela me vê entrar e diz:
- Eu sabia que hoje a Barbie viria!
Sempre respondo que posso ser a avó da Barbie, mas ela fala alto, olhando para todos, enumernado as minhas qualidades físicas e todos riem e eu saio de lá com um pão fresquinho, cebolas douradas e cheirosas e um enorme sorriso no rosto.
Porque ela não se entrega a devaneios, ela apenas diz.
Diz que está assim por falta de amor, diz o que acha bonito, o que acha feio. Explica porque a família se transformou em um motivo de dor, fala sem retrancas, sem culpas, sem medo.
E não me importo quando vejo os olhares obtusos no momento que ela me abraça, pois sempre me interessei mais pelas almas, mesmo elas estando presas em algum armadilha confusa do cérebro.
E afinal, já vi mais loucos que se dizem normais do que coerentes que se passam por loucos.
E quem sou eu para julgar?

Nenhum comentário:

Postar um comentário