sábado, 21 de dezembro de 2013

Dentes à Mostra


Estou em uma idade em que os medos, quase todos, sucumbiram à percepção de que medo não serve para nada. Cautela, sim.
Bem, por isso não tenho mais medo de reconhecer os meus defeitos, que são muitos.
E como todos fazem, neste final de ano vou tentar corrigi-los.
Exceto um.
Sou bicho do mato, ermitã, selvagem ou qualquer adjetivo que se enquadre em alguém que abomina festas.
Não aquelas de amigos de verdade, de sorrisos de verdade, de alegrias de verdade.
Mas aquelas puramente sociais.
Ontem comprovei a minha abominação.
Convidada de um amigo do meu marido para a celebração de sua meia década, até que gostei da parte de escolher um vestido, pedir para a filha fazer aquela maquiagem que só ela faz, arrumar o cabelo, tomar um drinque depois de estar perfumada e com aqueles saltos (que jamais uso) nos pés.
O meu bicho interno ficou domesticado no trajeto de carro, na caminhada iluminada por tochas, no abraço de Desejo Muitas Felicidades.
Mas depois ele começou a se remexer, ameaçando rasgar o meu lindo vestido, rindo dos meus saltos desconfortáveis, fazendo eu me agitar na cadeira em frente ao telão com imagens de uma vida bem vivida.
Não sou comunista tampouco revolucionária, mas a euforia dos adoradores de vida social me constrange.
As mulheres troféu, os homens pavão (aqueles em que as cédulas se abrem coloridas e brilhantes), as disputas de melhor botox, melhores Coxas Depois dos Quarenta em diminutos vestidos de adolescentes, dentes mais brancos, demonstrações de Ainda Como, Ainda Dou, papos de férias monumentais, empregadas incompetentes, tratamentos" baratos" de mil reais.
A certa altura os meus dentes já estavam meio à mostra e eu temia pela transformação iminente.
Então, delicadamente, sussurrei um Vamos Embora no ouvido do meu marido.
Ele disse para eu esperar mais um pouco, pois seríamos os primeiros à sair.
Escondi as garras pontiagudas que começavam à surgir nas pontas do meus dedos, atrás da carteira fina e moderna de couro.
Finalmente percorremos de volta aquele caminho de tochas.
No carro, joguei longe os sapatos.
Soltei os cabelos.
E fiquei feliz de não ter matado ninguém.

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