domingo, 7 de junho de 2015
Sinto muito, meu amor.
Fui criada em apartamento.
Meu refrigério para a sensação claustrofóbica de ver a vida de cima e à distância eram as férias, onde eu desfrutava dos prazeres de uma casa.
Há onze anos me mudei para a zona mais bonita da cidade e pude, finalmente, contemplar as copas das árvores deitada na minha cama e ouvir o trinado dos pássaros pertinho dos meus ouvidos.
Foi então que me apaixonei perdidamente pela zona sul.
Como amor adolescente, entreguei cada partícula do meu ser à esta paixão e todas as suas peculiaridades, desde os lagartos tomando sol no asfalto, a serenidade do rio, as ararinhas e seus gritos estridentes, o clima de praia e descontração, as idas ao supermercado de saída de banho e sandálias de borracha.
Trincava os dentes ao ouvir alguém falar da distância e sempre perguntava "distante do que, afinal?"
Como cria da Avenida Carlos Gomes, jamais supunha que eu poderia me enraizar em um lugar tão distante do que fui.
Mas minhas raízes andam se tornando frágeis, pois toda a esplendorosa beleza de uma região ainda não dissecada pela civilidade tem se mostrado cansada, assim como eu.
A corrida na orla, uma das minhas maiores fontes de alegria e prazer, agora me entristece com tamanho descaso pela exuberância e magnitude da natureza.
Prostituição à luz do dia, despachos e seus ratos, cabeças e carcaças de bichos em rituais religiosos, velas queimando troncos de árvores, furtos à todo instante, cães abandonados, sujeira indescritível.
Calçadas quebradas, com crateras ou empilhamento de pedras, obras que desrespeitam a passagem, avenidas que são acostamento de areia, dezenas de animais atropelados.
O que era a poesia do rústico está se tornando um arremedo de cidade grande sem as vantagens de ser grande, com as mazelas do crescimento abrupto.
E os tentáculos apertados desse crescimento andam sufocando a beleza pueril e bucólica de um lugar que deveria crescer, feito suas árvores, para o alto e não para baixo.
Crescer não só com shoppings ou empreendimentos, mas com respeito pela preservação da alma singular de ser único.
Que está ficando ordinário.
Imagino o amargo na boca de quem viu o passado desse pedaço de cidade.
Eu? Sou apenas amante recente que ainda tem a coragem de tornar seu, algo que pertence à história.
Mas mesmo recente, sinto toda a dor de ver partir aos poucos a paixão que me arrebatou.
Sinto toda a dor de ver que se apossaram do meu bem querer, pessoas como eu, diferentes na forma de tratar, entender e preservar os esconderijos relutantes e ainda vivos de luz.
Essa luz que faz brilhar tudo que ainda não sucumbiu à dor e à voracidade do bem individual.
Sinto muito, meu amor, mas tenho que dizer.
Nossa relação está frágil, pois mudaste nas mãos de quem quer o teu mal.
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