quarta-feira, 17 de junho de 2015
O Intruso
De vez em quando ele abandonava o peso da realidade para ficar caminhando, como um intruso, dentro da própria cabeça.
Naquele despertar cedo demais, onde a luz do dia ainda não brilhava e a as asas dos pássaros ainda estavam fechadas.
Era quando ele transitava pelo que ele havia sido.
Entrava na antiga escola, aquela que não lhe dava notas boas, mas havia lhe oferecido o calor de muitos amigos.
Ouvia os conselhos ácidos e rancorosos dos professores de religião que tentavam fazer do seu Deus, um Deus mal e vingativo.
Voava nos aviões que o levaram às cidades, aquelas que ele fez parecer sua casa no período da sua vida que não sabia o que era um lar.
Como intruso, mesmo não sendo, molhava o travesseiro com as lembranças boas e com as que lhe pareciam ruins naquela época, mas que eram boas, afinal de contas.
E no farfalhar de certas asas, na luminosidade de uma janela, acabou entrando no que agora era.
E caminhou, olhando o corpo que estava ali, imerso em lembranças e cobertas.
Fechou as portas do que foi, sentou no chão do quarto e prescrutou o homem que estava sendo.
Esse homem faria sorrir o intruso que viria se apoderar de suas lembranças em dias que estavam por vir?
Era fácil saber o que foi, difícil saber o que realmente era e impossível conhecer o que seria.
Foi feliz? Era feliz? Seria feliz?
Teria cabelos brancos, rugas e todas aquelas coisas que todo mundo tem. Perderia dinheiro, teria problemas no trabalho, com os filhos, com os vizinhos. Iria ter Natais, mas netos, não se sabe. Iria reclamar da vida e da política, cuidar da saúde, pagar os impostos, trocar de carro.
Ou nada disso, pois poderia ser totalmente diferente do que era.
Ou simplesmente não ser mais.
E seria feliz?
Quem deveria saber?
Ele ou o intruso que sabia demais?
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