terça-feira, 2 de junho de 2015

Amores Longos


Quem tem filhos já crescidos que ainda moram em casa sabe o quanto é difícil administrar egos, posições, opiniões e gênios de vários adultos que ocupam e vivem no mesmo ambiente.
Mesmo sendo sangue do nosso sangue, as crises são inevitáveis.
O que dizer de casamentos longos?
Nenhum dos dois nasceu de nenhum, mamou em algum, foi doutrinado, disciplinado ou alfabetizado com os mesmos princípios ou particularidades que regem cada família.
Então, a concessão, o respeito, a tolerância e a boa vontade devem ser duplicadas para que reine a harmonia e a longevidade da relação.
Com os filhos acontece algo que vai na contramão da coerência: amamos antes de conhecer o caráter, antecipando e projetando o que será ou o que esperamos que venha a ser.
Com maridos e esposas aprendemos com o tempo à admirar, respeitar e amadurecer aquela paixão visceral, infantil e nada perene, até que se prove o contrário.
Porque amor de filho nasce para sempre.
Amor de todo o resto precisa de muitos cuidados.
Casamentos longos requerem o dobro de atenção, visto que despidos da fragilidade da conquista, onde o melhor de si e o do outro é o que é valorizado, a manutenção das segundas, terças, quartas e quintas feiras é tão importante quanto os brindes de sextas e sábados.
Casamentos longos são ótimos, mas de delicada administração.
Quando o oba a oba da paixão embarca nas ondas suaves do amor seguro é quando muitos abandonam o leme para tirar aquela merecida e adorada soneca.
E é quando os barcos afundam no poder desvalorizado das marolas.
Ou é quando as sonecas se tornam eternas e ninguém mais sabe se o que flutua era o que já deveria estar adernado.
Conto no dedos a felicidade dos antigos casais. Infelizmente.
Escuto histórias de ressentimento, vidas paralelas que não se cruzam, solidão à dois, desinteresse.
A felicidade conjugal não é a fórmula criada pela sociedade ou religião.
Não é heterossexual, paternal, maternal ou cheia de bodas de prata, de ouro e de diamantes.
Isso é o que se mostra.
A felicidade à dois, principalmente a longa, depende muito dos dois, por mais óbvio que possa parecer.
Não haverá dinheiro ou saúde que segure o que não quis ser segurado.
E, sim, mesmo na doença ou na dificuldade um amor perdura.
Mas só aquele que foi alimentado para sobreviver à escassez do tempo que resta, mas na fé de que o restante desse tempo também merece ser cuidado.
Ou rebobinado.


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