quinta-feira, 4 de junho de 2015

Gordura no Fogão


Certo dia, minha sogra (uma pessoa muitíssimo ligada em limpeza doméstica) estava de visita na minha casa.
Depois de fazer o almoço, fui cuidar da louça e ela sentou-se, mãos apoiadas languidamente à mesa, olhinhos argutos de uma pessoa treinada para ver sujeira, conversa rolando solta.
Quando, finalmente e esgotadamente terminei a limpeza do fogão, ela falou:
- Tem que retirar os bicos acendedores para a limpeza ficar perfeita.
Olhei para os bicos acendedores e eles soltaram uma risadinha de puro escárnio para mim.
Não é que eles saíam mesmo do lugar, se eu os puxasse?
Fiquei com aquilo na cabeça por um bom tempo, tempo o suficiente para sempre me sentir obrigada a retirá-los e lavá-los, caso contrário eles poderiam gritar um "porca!" nos meus ouvidos.
Quando finalmente me dei conta de que fazia aquilo não por mim, mas pela lembrança de um capricho que não era meu, deixei os imbecis dos bicos acendedores uma eternidade no mesmo lugar. 
Quantas coisas fazemos para obter a aprovação dos outros?
Acredito que muitas.
Nos mantemos magros pela satisfação pessoal e preocupação com o bem estar ou para ficar legal para a foto?
Mantemos um emprego que nos faz feliz ou nos dá status?
Aceitamos as amizades falsas para colecionar amigos ou gostamos mesmo de lidar com gente falsa?
São tantas coisas.
Talvez, tenhamos aprendido que devemos ser assim ou assado e esquecemos do que realmente queremos ser.
Meu pai já era aposentado há anos, mas seguia o ritual de retornar dos finais de semana em Gramado sempre aos Domingos.
Eu questionava o porquê, visto que eles se sujeitavam à quilômetros de engarrafamento quando poderiam viajar tranquilos na segunda, na terça ou nem retornar naquela semana. 
A resposta vinha cheia de reticências e a minha conclusão era de que, por mais incrível que pudesse parecer, eles eram movidos pela culpa. Pela sensação de estarem cometendo algum ato de extrema leviandade e vagabundagem. Pode?
Pode, sim.
Os outros estão muito menos preocupados conosco do que a gente supõe, podem acreditar.
Ok, minha sogra se deteve à minha momentânea falta de capricho, mas depois ela foi para a sua própria casa, esqueceu o famigerado fogão e eu fiquei me contorcendo de vergonha.
E se não fossem os bicos do fogão, poderia ser outra coisa, dita por outra pessoa, em uma circunstância totalmente diferente.
O que serve para mim pode não servir para você.
Fui me lembrar disso tudo hoje, quando deixei os bicos acendedores lá, bezuntadinhos de óleo de cozinha, depois de fritar batatas.
Porque gosto muito de mim e quero que o fogão se exploda!
Não literalmente, por favor.

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