domingo, 24 de agosto de 2014

Eu bebo para aguentar o mundo


Esta frase do título foi dita por um grande amigo que quando não está muito envolvido em não ser ele mesmo (e ganhar prestígio e dinheiro) é uma das poucas pessoas que a opinião ao meu respeito eu considero demais.
Pois bem.
Eu transitava, nesta mesma época, por um lado bastante escuro, poi perdi muito tempo olhando para esses lados escuros do mundo que nos sequestram facilmente.
Uma época em que entregava a minha alma de bandeja à todas as mazelas que nos cercam, pensando que, desta forma, faria alguma diferença.
Então fui procurar uma profissional para que ela me ensinasse a não chorar tantas dores que não eram minhas e tentar não desistir de acreditar que para todo o mal existe alguma cura.
Nas nossas conversas citei a frase essa para exemplificar que, como eu, tantos sofrem da dor aguda de fazer parte de tantas coisas absurdas.
Ela enlouqueceu.
"Que mundo horrível é esse que esse seu amigo vive? Que vida Pouca Coisa ele leva, não é?"
Quando vamos à um especialista na saúde mental, alimentamos uma fantasia infantil de que ele tem uma varinha mágica no alívio e no esclarecimento das dores e, muitas vezes, esquecemos que são seres humanos que projetam na sua maneira de diagnosticar as suas próprias neuroses e obsessões. Por isso, temos sintonia ou não com determinados profissionais.
Descobri, naquele dia, que a minha vibração passava longe dessa pessoa e fui embora.
Um diploma, um doutorado, mestrado e cursos no exterior não serviram para aproximá-la de mim e muito menos para me curar, pois a verdadeira cura se dá por amor, mesmo que esse amor seja um negócio. Quem não tem amor para dar pode oferecer soluções, mas não amparo.
Quem não vê as misérias com o coração, pode ser um ótimo profissional, mas dificilmente será uma ótima pessoa. E não costumo pensar que uma pessoa é separada por linhas definidas, tudo acaba se misturando, uma hora ou outra.
Precisamos de algumas doses de anestesia, que são diferentes para cada um de nós, para suportar algo que sabemos ser inóspito.
Quem, como ela, se sente flutuar acima da dor por possuir um status acima da média, não conhece a maneira de consertar uma alma que quebra, pois julga que todos os pedaços estão à mão para serem colados, quando, na verdade, muitos escapam e param em frestas.
Quem aguenta o mundo sem nunca se desesperar, sem tomar um porre, chorar, sair correndo, desistir para recomeçar, cair para se levantar, pensar em sumir ou dormir, é um herói.
Mas daqueles que tem apenas uma identidade e nenhuma fraqueza e, por isso, não salvam ninguém, pois não existem nem nas telas do cinema.

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