sábado, 30 de agosto de 2014
Amor com validade vencida
Ela tá cheia de mim.
Me disse isso há pouco, quando eu tirava as minhas cuecas ultrapassadas e vestia o meu pijama mais ultrapassado ainda, para dormir às nove horas e cinquenta e oito minutos de uma sexta-feira com tempo bom.
Eu.
Apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no bolso e vivendo nessa porra de país que não faz dinheiro nenhum crescer, só aquele ganho nos campos de futebol, nas heranças, no tráfico e na sonegação.
Eu.
Que trabalho. Mesmo que esse trabalho não seja nada nobre, nem exija doutorado e essas porras de títulos que só servem para fazer os idiotas serem contratados por alguém mais idiota ainda, mas que se acha o idiota mais bem sucedido do mundo porque alguns idiotas cobraram caro para falar um monte de coisas que só servem para alguns.
Ela tá cheia de mim.
Justamente pelas coisas que a fizeram, um dia, encher os olhos de lágrimas e abrir as pernas com a emoção de quem acaba com a fome na África.
Agora nem sequer um sorriso ela abre, quisera abrir as porras das pernas que estão bem peludas, diga-se de passagem.
Ela não sabe que a gatinha loirinha, com os cabelos chapados que encostam na bundinha empinadinha, está me dando o maior mole enquanto eu ensino ela à dedilhar (que dedinhos!) as cordas do violão.
Sim, porque tem gente que acha legal eu ser músico e ensinar às pessoas todos esses mistérios e poesia que é possível arrancar da música.
Só que ela tá cheia de mim.
Então ficou cega para tudo aquilo que sou e que ela mesma disse que a fez respirar de novo.
Pelo visto a respiração tem prazo de validade e aqueles suspiros que eu provocava estão vencidos e fazendo mal à saúde.
Dela, diga-se de passagem.
Porque eu também mudei muito, amadureci, revi a minha vida e essas boiolices todas, mas continuo sendo a mesma porra de cara.
Um cara com uma puta vontade de viver.
Um cara que se orgulha de ser o que é.
E...
Porra!
Caraca.
Eu tô muito cheio dela.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário