sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Balde e Ressaca
Como a gente é grande e pequeno, feio e lindo.
A gente que se adora e se odeia e tem esperança e desespero sendo vizinhos de janela dentro das ruas que são as nossas artérias.
E é uma guerra interna essa coisa de existir.
Porque a nossa doença, vez ou outra, faz a gente querer que a Gisele Bundchen se dê mal pelo menos uma vez na vida, seria pedir muito?
Ou faz com que a gente se ache um monte de coisa dentro de um monte de lata que foi fabricada por um monte de gente igual à nós.
A gente também tem vontade de morder feito tigre, mergulhar feito baleia e amar sem papel ou regra certa para isso ou aquilo. Porque a gente também é bicho e gente ainda por cima e é por isso que a nossa caixola anda sempre tão aquecida, precisando de assopros alheios.
Ou apenas assopros.
Do próprio vento.
Porque cansa demais ter que ser culto, bonito, moderno, rico, saudável, sexualmente ativo.
Cansa tanto que nos deixamos abduzir por uma música ensurdecedora em uma noitada regada à tequila.
Cansa tanto que a gente tem que ser exímio em tudo, controlador de todas as tarefas do dia.
Tem que ter foto bonita no Facebook mostrando aquela felicidade perene que de perene não tem é nada, pois ninguém põe foto de rosto inchado depois de brigar com os filhos, o marido, o namorado, os amigos.
Mas a gente é isso.
Uma vontade louca de ser amado, por favor, de qualquer forma, mesmo que essa forma seja torta.
A gente endireita depois.
Em todas as nossas brigas de trânsito, comilanças, bebedeiras e histeria se esconde a vontade absurda do colo que nos foi negado. Por quem, afinal?
Então dá-lhe compras, cachaça, sexo rápido.
Ou quem sabe um mergulho nos livros, no trabalho, no exercício? Quem sabe um balde bem chutado?
A gente é isso.
E é tão bom!
Exceto por ter que procurar o balde.
E o pior.
Com a maior ressaca.
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