segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Esmalte de verão
Eu coloria cada unha com uma pétala.
Em uma infância feliz.
Onde os bancos das bicicletas eram forrados com capas fofas do Inter ou do Grêmio e as buzinas compradas no Bazar Praiano de uma praia que era minha e que oferecia como único perigo os siris que fechavam as suas garras em dedos desprevenidos.
Eu me bronzeava sem medo de adoecer a pele, depois dela se tornar tão bonita e dourada.
Raspava a barriga nas planondas, comia as uvas doces da parreira do meu avô, ouvindo o afiador de facas anunciar um verão que se aproximava, recheado dos cantos das cigarras.
Não secava nunca os cabelos e não tinha pressa em sair do mar.
Meu maior desafio eram os livros e a tabuada.
Eu era livre da forma mais libertadora que pode existir.
A liberdade de pensar.
Tinha um futuro de páginas em branco e a felicidade era picolé Chicabom e o sorriso do garoto mais lindo que caminhava nas areias fofas da Guarita.
Tinha poucas roupas, mas muitas alegrias.
Meu uniforme eram as Havainas e algumas camisetas que eu idolatrava.
Os amigos eram de verdade.
Os mosquitos morriam aos som do Flit e o meu lanche da tarde era puxa-puxa, pão de milho (do padeiro que vendia suas delícias na carroça puxada por um burro), batida de banana e pipoca doce.
Ah, o som da buzina do pipoqueiro antecipava o prazer que dobrava a esquina.
"Me dá dinheiro!"
A casa era pequena, mas lembro de cada quadro ilustrado por negras africanas e seus imensos cabelos e colares.
Lembro da correria por causa dos gambás curiosos, dos jogos de tabuleiro, do Noskote grudando nos cabelos.
Da fome insaciável, do sono na esteira com borda vermelha, do colchão de ar nas marolas da Cal.
Posso não ser mais criança.
Mas ela ainda mora dentro de mim.
Principalmente quando escuto o verão.
Pois somos cada lembrança, cada calor, alegria ou decepção.
Guardamos todos os amores, sons, gostos e cheiros.
Cada pedacinho de felicidade ou fissura nos sonhos.
Somos imensos de tantas vivências.
E pequenos quando tentamos entendê-las.
E não simplesmente vivê-las.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário