sábado, 12 de abril de 2014
A Surpresa da Farmácia
Frequento a Panvel da Wenceslau Escobar por ser uma das filiais - na zona sul - que tem o melhor atendimento e as menores filas.
Há um mês tive uma grata surpresa, uma surpresa que continua lá e apesar de não me surpreender mais, ainda me encanta.
Depois de ser atendida no balcão, chegando ao caixa fui recebida por um rapaz gentilíssimo, ágil, educado e simpático. Algo nada normal no atendimento prestado aos pobres clientes da nossa cidade, que tem que conviver com as caras emburradas dos atendentes que trabalham como se não recebessem remuneração.
Mas essa surpresa não era A Surpresa.
A que me arrebatou foi o fato do rapaz não possuir braços, porém pequenos membros com uma terminação parecida com um dedo. O comprimento dos seus "braços" não chegavam ao cotovelo de uma pessoa normal. Mas o sorriso e a boa vontade ultrapassavam qualquer medida padrão.
Recolheu cada pequena mercadoria na bancada, inclinando o corpo para frente. Recebeu o meu cartão, embrulhou, digitou, tudo com destreza. E muita boa vontade.
Foi então que a minha mente começou a borbulhar.
Por que ao invés de eu me comportar como uma adulta civilizada, fingindo estar diante da coisa mais trivial do mundo, não resgatei aquela criança inquieta que fica pulando e falando sem parar, dentro de mim?
Sim , porque todos os adultos civilizados fingiam não prestar a atenção ao pequeno defeito físico do rapaz, pois seria indelicado esboçar alguma reação.
Mas o rapaz e nós sabemos que não somos indiferentes à coisas diferentes e que seria muito mais honesto e bacana se deixássemos a nossa reação natural aflorar.
Uma criança faria o seguinte:
"Oi! (tempo grande encarando os movimentos do rapaz). O que houve com os seus braços? (sem malícia, nem ironia, apenas curiosidade). Que irado, você deve ter treinado muito para ficar assim tão rápido! O meu amigo tem uma perna diferente da outra e ....blá,blá,blá. Puxa, cara, legal te conhecer!"
Porque uma criança não tem preconceito, ela julga os seres humanos como sendo iguais, com as suas pequenas diferenças.
Uma criança reconheceria de longe um super herói que não veste capa, mas distribuí esperança ao acordar todas as manhãs e ir ao trabalho, mesmo enfrentando muito mais dificuldades do quem teve o privilégio de nascer livre de limitações.
Eu gostaria de dizer àquele jovem atendente que vejo mulheres com depressão por estarem ficando velhas. Adolescentes que não saem por se acharem gordas, pessoas que juram estarem passando por dificuldades quando encontram um obstáculo temporário em suas vidas.
Essas pessoas, faz tempo, me deixam para baixo.
E são esses heróis sem medalha que sempre me salvam dos vilões transbordantes de vaidade.
E fazem eu ir adiante, acreditando que tudo pode ser superado.
Exceto abdicar de viver.
E penso que ele deveria saber.
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