domingo, 23 de março de 2014

Somos Todos Consequência


Jantando na casa de amigos, um deles levou a esposa, vinte anos mais nova, com seu bebezinho de cinco meses.
Fazia tempo que eu não observava mãe e bebê tanto tempo, em cada delicioso detalhe. Mãozinhas rechonchudas que agarram seios, perninhas mais rechonchudas ainda que denotam brabeza ao sacudir energicamente, sons parecidos com miados, olhar profundo e ao mesmo tempo distraído.
Me abstraí de toda a conversa que dançava nos meus ouvidos e mergulhei naquelas cenas de vida. Do começo dela e toda a relação com o novo e princialmente com quem lhe proporcionou enxergar o mundo: os pais.
E mais uma vez fui invadida pela certeza de que é ali que tudo começa.
Toda a forma de nos relacionarmos com as pessoas e a vida é o reflexo da compreensão do bom e do mal que percebemos nos primeiros olhares, nas primeiras rejeições, carinhos. Nas primeiras necessidades atendidas ou não, e quando atendidas se com amor ou frustração.
E entendi, mais uma vez, o porque da humanidade carregar tantos traços neuróticos, obsessivos, deprimidos, assassinos, loucos.
É muito difícil acertar, mesmo tentando ao máximo, pois nascemos cheios de necessidades porém inaptos em demonstrá-las.
A jovem mãe tentava desesperadamente entender o que quer que estivesse deixando sua filha incomodada e chorosa, mas não obtinha sucesso. Saiu da sala barulhenta, deu o seio, colocou de bruços, ninou, acariciou.
Nada.
Poderiam ser cólicas, sono, agitação, cansaço, calor, frio, fome, sede. Poderia ser tudo. Um Tudo que deixa dois adultos vividos na situação em que todos nós nascemos: na mais absoluta ignorância.
E esse bebê foi atendido dentro da limitação cega de quem não tem números nem palavras para se guiar, mas amor para tentar.
E os que não tem?
Os que nascem sem consentimento? Sem amor? Sem um berço para dormir, uma mão para afagar, um colo para se recolher?
E tantos outros que dormem em lençóis rendados, com móbiles importados oscilando acima das suas cabecinhas, mas são entregues à tantas mulheres de branco, pois as mães devem estar ocupadas com tantas coisas mais?
Lembro até hoje (eu deveria ter dez anos) de uma mulher lindíssima que casara com um bem sucedido empresário e era amiga e vizinha da minha mãe. Ela levava o bebê nas visitas e quando percebia que a criança queria se aliviar nas fraudas, na hora que ela considerava errada, pressionava com o dedo a bundinha da criaturinha que berrava. Uma doente mental que me faz, arrepiada, imaginar que tipo de vítima - monstro ela criou. Ou, quem sabe, que ser humano maravilhoso se tornou, depois de superar os seus fantasmas pessoais? Sabe-se lá.
Tantas vítimas-monstros que andam por aí provocando dor, terror e sofrimento em outras pessoas, pois não conhecem outra forma de existir.
Nunca me esqueço que uma amiga psiquiatra me disse que de dez pessoas apenas uma goza de plena saúde mental.
Gostaria de me sentar por várias horas com essa mãe que criou esse 1% de amostragem.
Ou pai.

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