quarta-feira, 12 de março de 2014

Menor dos Males


Tenho quarenta e seis anos.
Sou casada, não tenho mais comprometimento intenso com os filhos, estou no auge da minha estabilidade emocional, da minha saúde, minha disposição física e psíquica.
Tenho disponibilidade de horários, já sei muito mais do que eu sabia aos vinte anos.
Mas sou carta fora do baralho no mercado de trabalho.
No Brasil, diga-se de passagem. 
Por que?
Recentemente me candidatei à uma vaga em uma renomada joalheria, que já assinou minha carteira do trabalho, e ouvi da própria gerente que pessoas que já tiveram vínculo com a empresa eram as primeiras da lista.
Me pergunte se fui contratada.
Ao passar em frente à loja , dias depois, vi uma das funcionárias (de seus vinte e poucos anos), sentada à mesa (que fica de frente para a porta, aliás todas ficam) com uma tesoura, aparando, languidamente, as pontas duplas dos cabelos.
Muito chique. 
Mas ela era jovem, certo?
Qual a razão obsoleta de termos postura e educação, se temos anos a menos registrados na nossa carteira de identidade e sabemos que é isso que o mercado pede?
Ouvi de uma conhecida que o limite tolerável para uma Propagandista (para quem não sabe, as moças que distribuem amostras grátis aos médicos e tentam alavancar as vendas dos laboratórios que representam) é quarenta anos.
E ainda, ela já perdeu vagas em outros lugares, pois já estava na casa dos trinta - "meio passada" para as exigências nacionais retrógradas.
Desde os meus dezoito anos vejo comissárias de voo de companhias estrangeiras, exibindo com orgulho os cabelos prateados.
E não adianta colocar esse monte de vagas para idosos, quando o respeito ao passar dos anos só fica no papel.
Em um país cheio de programas como o Pânico e suas Paniquetes, não poderia ser diferente.
Em um país onde os ídolos são os gostosos, jovens, marombados, esportistas e um que outro boçal feito o Roberto Carlos, não poderia ser diferente.
Em um país onde nada mais me surpreende. Nada.
De toda a absurda e desenfreada podridão, não empregar mulheres com mais de trinta, é o menor dos males.

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