segunda-feira, 17 de março de 2014

O Peso da Água


Mas por que eu me sinto culpada com tudo, afinal de contas?
O meu choro de recém nascida foi culpado.
Depois, com as pernas ainda bambas por ter dado os primeiros passos, caí na garras do Colégio Farroupilha (salve, salve a nossa escola...quem passou e sobreviveu à ele, conhece esse hino maldito).
Os diretores eram todos alemães, o primeiro mal falava português, o Professor Hanz Tiz (era o som do sobrenome, não sei como se escreve) tinha uma tendência forte a criar um sistema de crianças/ rebanho que mal falavam, sequer pensavam, mas obedeciam. E muito.
Para isso contou com um exército de professoras solteironas, mal amadas e de descendência germânica (não sou racista, mas que as raças obedecem aos seus padrões fenótipos, eu não tenho dúvidas) para ensinar torturando, método tipicamente alemão.
Quando saía do Colégio Farroupilha ia para casa, onde pais germânicos me aguardavam.
Então, eu tinha o treino na Sogipa (clube alemão?) para me tornar uma grande tenista, pois fazia parte da equipe juvenil de tênis.
Nunca fui uma boa estudante. Era rebelde (Graças à Deus) e fazia mais estripulias do que qualquer menino da sala. Vivia em aulas particulares e recebia puxão de cabelos quando errava a tabuada, mas mesmo assim não me importava.
Na sexta série joguei uma cadeira pela janela e me senti muito realizada, mesmo confessando tudo para o diretor (que usava uma peruca em tons marrons) e ouvindo um "me surpreende ser uma menina com uma atitude dessas". Confessei só para não comprometer toda a turma com uma suspensão.
Como tenista, me esforçava para perder as partidas.
Então, penso que tentei de toda as formas me rebelar contra a culpa.
Mas jamais consegui.
Sempre penso que fiz mais quando deveria ter feito menos.
Fiz menos quando deveria ter feito mais.
Sou completamente realizada com as minhas escolhas, mas sempre fica aquela monstrinha, escondidinha nos recônditos do meu cérebro, acusando: Era isso?
Me esmero para ser uma pessoa digna, mas sempre penso que poderia ser melhor.
Melhor, maior, menor, mais, menos...
Aprendi a viver assim.
Ou eu teria casado com um alemão?
E a culpa me machuca, mas me impulsiona.
Pois tudo que faço vem com um manualzinho onde marco os erros e os acertos, segundo os meus rígidos e quadrados princípios.
E adoro pegá-lo na mão.
Deslizá-lo entre os dedos.
Folhear as páginas e me deliciar com aquele monte de rabiscos vermelhos.
E nesses momentos a culpa que nasceu comigo, vai dar uma voltinha sem hora para retornar.
Pois vou beber um pouco com os meus erros.
Ou seja lá como se chamam esses sinais de que não fui cem por cento, mas fui imensamente feliz.
E é isso que me mantém com a cabeça para fora dessa pesada água.
E me impede de eu me afogar.

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