terça-feira, 11 de março de 2014
Os Meus Fantasmas
Tenho alguns traumas na vida, como ser retirada do mar aos dez anos de idade, fazer tratamento de canal, perder minha primeira cadelinha. Me abstenho de falar sobre a perda de entes queridos, pois não é à essa forma de dor que me refiro.
Esses dias, contando para o meu marido esses dois traumas, que sabe-se lá porque, vez ou outra voltam tinindo à minha cabeça e retiram o meu sossego, ele sugeriu que eu escrevesse.
Como ele sabe que lavo, enxáguo e torço a minha alma quando estou redigindo, me sugeriu que eu criasse uma história de vingança, onde os personagens malévolos, que provocaram tamanho sofrimento na minha infância, fossem extinguidos por um Charles Bronson de saias.
Não iria resolver, pois foram reais, passaram, mas existirão e não pude fazer nada. E o não poder fazer nada foi o real motivo de o que vivi, virar um fantasma. Ou vários.
Pois resolvi escrever sobre essas assombrações medonhas, na intenção de afugentá-las e me livrar da dor que ainda sinto ao confrontá-las.
Me criei em Torres, onde meus pais possuem uma casa bem antes de eu ter sido concebida. E os torrenses, os nativos, para quem não sabe, são muito, mas muito cruéis. Em sua maioria.
Tive o desprivilegio de cruzar com três, dessas piores espécies, em um verão de 1978.
Um deles caminhava pela estrada da Guarita, um caminho sinuoso, lindo e cheio de lombas, enquanto eu pilotava a minha bicicleta e curtia o cheiro do mar. Ele não me via, mas eu o via caminhando à minha frente, com um pequenino cão o seguindo.
De repente, quando uma certa curva me tornou invisível à ele, mas não ele à mim, o monstro - um rapaz alto e com os cabelos compridos - se virou, agarrou uma imensa pedra do chão e a arremessou brutalmente no cãozinho.
Meu coração parou com o grito que o animal deu. Meu instinto foi imediatamente descer da bicicleta e me deitar no chão, pois depois de agredir o cão ele olhava para todos os lados, procurando testemunhas de sua barbárie. Como não avistou ninguém, afastou o corpo já sem vida para o canto, escondendo-o no meio do capim alto que ladeava a estrada. Fiquei meia hora deitada no chão, suando, com medo, raiva e confusão dançando no meu cérebro.
Quando finalmente me levantei, fui até lá.
E chorei. Chorei feito bebê ao lado do corpinho frágil que eu não pude defender.
Mas o verão não tinha chegado ao fim e mais uma vez me vi diante da crueldade.
Dessa vez, quando eu caminhava sozinha pela Pontezinha, nome dado ao paradouro que fica na encosta do morro da Guarita, na Praia da Cal.
Dois adolescentes torturavam uma garça, arrancando pena por pena e rindo às bravatas.
Pedi que a largassem e, por minutos, lembro da corrida capenga e sôfrega do animal, buscando se ver livre da maldade. Porém, para me provocar, eles a pegaram de volta e recomeçaram o que haviam parado, rindo muito do meu medo e desafiando a minha coragem. Não fiquei para assistir ao espetáculo.
E mais uma vez me senti de mãos atadas e o choro se transformou em uma raiva feroz no meu coração, para depois virar desesperança, desamparo e finalmente um fantasma.
Um fantasma de olhos medonhos que me pergunta sempre o porquê de eu não ter feito nada.
Está certo, eu era uma menina, pequena, sozinha, mas as assombrações não querem justificativas para não apavorarem as suas vítimas.
E elas me seguem e, às vezes, nos momentos mais inapropriados sentam ao meu lado e exibem um sorriso feio e fétido.
Depois de tantos anos, ainda sou uma refém sem saída.
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