quinta-feira, 6 de março de 2014

Quero Sentir Saudades

Eles se conheceram quando tudo que se conhece é o futuro.
Em uma época onde as promessas chegam de todas as formas possíveis e não é possível ignorar que se tem um mar de braçadas em um vasto oceano todo novo, inóspito, lindo e não penetrado, pela frente.
E fizeram planos.
Amor.
E fizeram filhos.
E com eles vieram os netos.
E entraram naquela barco sereno, mas nem sempre calmo, do entrelaçar de dedos já não tão famintos por descobrir lugares desconhecidos.
E não foi fácil também, pois não é fácil modificar a imagem que se tem daquele que tanto conhecemos.
Não é fácil mudar o olhar, mesmo que o olhar de ontem seja cheio de incertezas, dúvidas e inseguranças.
Porque morar no coração de alguém e habitar o do outro com perenidade, faz com que muitas coisas se percam, apesar das tantas outras que se ganham.
E a paixão, amor, amizade, pode se transmutar em outros sentimentos quando se divide por tantos anos as muitas alegrias e ressentimentos.
E eles, de repente, se enxergaram velhos.
E já não eram mais amantes.
Tampouco companheiros.
Mas cúmplices de uma jornada difícil que é se fazer dois, em uma vida onde se nasce para ser apenas um.
E quando finalmente o olhar do outro serenou no recomeço de uma outra história, é que aquele amante, amigo, companheiro, cúmplice, teve a certeza de que tudo valeu a pena.
De que o que vem é o resignado sofrimento.
Ou a surpresa de um novo sentimento.
A dor e o alívio.

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