sexta-feira, 21 de março de 2014

Fidelidade e Lealdade


Sempre fui um ser pensante.
Mas em tamanha intensidade que tive que começar à escrever para não parar em uma mesa de eletro-choque.
Beirando os cinquenta, a coisa piorou. A minha inquietude mental é tanta que consegui arrastar algumas amigas para uma espécie de terapia grupal, regada à vinho ou café, dependendo da ocasião.
Nessa terapia jogamos na mesa (ou sofá) tudo aquilo que habita a alma feminina e não apenas a nossa.
Tentamos dissecar o que é existir como fêmea nesse mundo que dividimos com tantas outras e os machos.
O tema de nosso último debate foi a fidelidade e a lealdade.
O que é mais importante para nós, termos um companheiro fiel ou um companheiro leal?
Na verdade, o ideal seria ambos, mas pensamos que isso só seria possível fora da terra onde as bundas dominam mais do que os cérebros.
Não entramos no grau de infidelidade aquele em que o sujeito mantém duas famílias, mas aquele que consiste em ecapadelas com o intuito de comprovar que a testosterona ainda anda bem comportada.
O sujeito lhe traz flores, ajuda na casa, no trabalho. Acaricia o seu braço, é romântico ao ponto de andar de mãos dadas. Gosta de sexo. Com você. Não xinga nem grita, não discute na frente dos filhos, não paquera na sua cara, enfim, é um amigo leal e bacana. Porém, tem lá os seus deslizes quando alguma dona balança as suas calcinhas na mão e rebola.
O sujeito vive reclamando de tudo, faz piada de suas inabilidades na frente dos amigos, encara todas as mulheres maiores de dez anos na sua frente, grita e dá esporro por nada, não quer saber dos seus problemas que aliás, são um bando de besteiras feministas. Não gosta assim tanto de sexo. Mas é um um exemplo de fidelidade.
Eu sei que estes dois perfis se contradizem nas atitudes, mas estamos em terapia de amigas, pelo amor de Deus, e tudo vale.
O que dói mais?
Qual macho em questão é o mais desejado?
É melhor ter a cabeça livre de adornos ou nos fazermos de cegas perante algo que se torna diminuto perto do que foi construído de bom?
É melhor ter uma linda história com algumas páginas amassadas (e imperceptíveis ao dono do livro) ou guardar todos os dias um livro imaculado porém difícil e chato de ler? 
Depois de várias taças de vinho e café e na proximidade dos cinquenta (novamente a idade ensinando) - onde enxergamos que tudo na vida tem vários lados - somos unânimes em chegar à uma conclusão.
Cada casal tem uma linguagem.
Um modo de se relacionar.
Uma maneira de ser feliz.
E isso não diz respeito à ninguém.
Apenas à quem resolveu segurar forte no leme e nunca deixar o barco afundar.

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