domingo, 30 de agosto de 2015

Aconchego


O melhor cheiro de uma casa é o de comida recém feita.
Fumaça de afetos com aroma de alho.
É o cheiro de chuva que entra com o vento através das janelas esquecidas abertas por mãos que se esquecem de fechá-las, mas deixam de ser esquecidas na hora de virar carinho no alisar de peles expostas.
O melhor cheiro de um casa é o de sofá usado, o de tapete gasto e o de cabo de panela queimado, panela que sorve fogo e expira vapor de arroz com salsa.
É o cheiro de amaciante na máquina que trabalha limpando tudo que se suja quando se vive de verdade.
É de patas e de pêlos.
De toalhas esquecidas em cima de camas.
De sabonetes baratos, de bolo assado, de bacia de roupas secas ao sol de verão.
O melhor cheiro de uma casa é o de grama recém cortada, o de amores consertados e o de tréguas na brigas por causa de roupas de menina.
É o cheiro de lágrimas secas e sorrisos molhados.
De malas prontas e de malas desfeitas.
De leite derramado, de incenso de flores, de cabelos recém lavados.
O melhor cheiro de uma casa é o de corpos que se conhecem.
E cada casa tem o seu cheiro.
Que é somente dela e somente nosso.
E mesmo se não for mais a minha casa, aquela de todos os cheiros conhecidos, não importa, pois carregarei todos eles para sempre comigo.

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