sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Gaivotas, Cães e Bebês


Não posso deixar de doer perante a foto de um bebê inerte, consumido pela injustiça e a morte.
Cresci sentindo toda a dor do mundo e não, não pedi ou quis que fosse assim.
Meus rasgos na alma começaram quando percebi que existia uma maldade e uma injustiça que eu ainda não compreendia, assim como não compreendo até hoje, mas as engulo como engoliria uma faca.
Apreendi a aspereza do existir ao caminhar na beira de uma praia deserta e assistir a cenas cruas de terror.
Meninas não deveriam ver adolescentes depenando gaivotas vivas e não deveriam pedir que parassem.
Não deveriam ver olhos injetados de raiva ao lhe olhar com escárnio e prazer.
Ou ver a corrida desesperadora da ave em direção ao mar, na trégua que durou pouco.
Nesse momento criei o meu profundo vínculo com aqueles que não são capazes de se defender das atrocidades do mundo.
Na minha dor, revolta e falta de coragem em intervir, morri e renasci dura e intolerante à feiura do ser humano.
Meninas não deveriam se jogar no chão e se esconder ao ver um homem matar com uma pedra um pequeno cãozinho, pelo simples fato de ele estar lhe seguindo.
Ali, morri de novo.
Morri, nasci, endureci, percebi, me rasguei, me costurei e fiquei cheia de cicatrizes em apenas um verão. 
Um verão violento.
Que eu não pedi.
Mas estava escrito para mim.
Encho os meu olhos de lágrimas até hoje ao lembrar destes dois episódios daquele verão.
Já acordei no meio de muitas noites pensando na culpa pelo meu silêncio e medo.
Essa culpa que não é apenas pela gaivota ou pelo cão, mas por esse todo de bebês afogados e ingenuidades mutiladas que passam a ser minhas no momento que existem e se tornam possíveis.
Transformei o meu choro eterno e sem consolo em dentes agudos e mãos imensas na defesa e no acolhimento daqueles que sei indefesos.
Consigo ainda ficar de pé, através de uma cegueira pertinente que venda os meus olhos e fortifica as minhas pernas.
E me rasgo todos os dias.
Para consertar depois, na fé de que existe os rasgos e as costuras. 
Existe o feio e o bonito.
A queda e o voo.
Nunca sou plenamente feliz, pois sei o tamanho da infelicidade que existe.
Tenho tudo, tenho muito.
Sou inteira e olho sempre para a luz.
Apesar do buraco escuro que se esconde dentro de algum lugar qualquer dentro de mim.
Esse lugar onde moram gaivotas, cães e bebês.

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