quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Capas de Sofás


Em uma noite de chuva, sentada no chão, esperando os cães do cliente tomarem água, depois de muita farra, passei os olhos pela casa, a do chão em que eu estava.
Porque o chão é o melhor lugar para eu estar quando eu quero estar de verdade, principalmente quando quero entrar dentro de mim.
Olhei cada detalhe pensado com carinho, aquele carinho de quem está recomeçando, faxinando o passado, enfeitando e enfeitando-se para refrescar o presente e tentar preparar um futuro diferente.
Então vi o sofá, o mesmo que havia visto algumas vezes, mas como disse é do chão que enxergo e ouço melhor o mundo.
Eu sabia que o sofá era branco, mas algumas amarras no encosto me mostraram que, além de branco, ele tinha uma capa.
Uma capa branca também que o protegia de mãos, pés, esporadicamente patas, pernas, costas e traseiros.
Uma capa que deixava nesgas de um tecido muito mais bonito.
E pensei.
Quem será o merecedor da nudez do sofá?
Quem poderá vê-lo, tocá-lo, sujá-lo e beneficiar-se do seu conforto e da sua real beleza?
Por que deixar para os outros, para depois, para mais tarde, para uma ocasião especial o que consideramos valoroso?
Copos, louças e sofás. 
Comemorações, brindes e alegria.
Nós.
De verdade.
Por que não desfrutamos da segunda e da terça, do sentar macio e do deslizar das mãos em um sofá que é nosso? 
Aquele que olhamos na loja e nos apaixonamos, mas que o escondemos com uma capa para mantê-lo impecável até o momento que outros também permitam que nos deleitemos com a sua imaculada beleza.
E vamos guardando esses pequenos prazeres e grandes sentimentos para quando realmente for importante senti-los.
Ah, nas férias vou beber e comer o que quero, vou gargalhar sem parecer ridículo, vou dormir sem me sentir culpado, vou me permitir sentir a vida que me escapa na rotina dos dias.
Um dia vou dizer tudo o que sinto.
Vou ser esse eu que sou, afinal.
Ninguém aqui está falando de viver uma vida louca, mas de se dar mais, sem medo de que a nossa "sujeira" macule ideias que queremos que os outros tenham sobre nós.
Temos que estourar o espumante mais caro do mundo em uma comemoração à nós mesmos e, de preferência, bebê-lo sozinho.
É preciso chegar em casa, depois de uma dia exaustivo, e deitar no nosso sofá bonito, que escolhemos para ser uma parte também bonita e singela do nosso merecimento.
Não vamos ser o que somos agora, para sempre.
Vamos pisar na bola, crescer, se arrepender, se regojizar, rir, chorar, começar, terminar.
E vamos nos sujar e nos limpar.
E somos muito, mas muito mais únicos e importantes do que um sofá.
Somos parte dessas atitudes que representam tanto do que dizemos pouco.
Essas que fazem com que tenhamos vontade de coisas bonitas.
Mas que também fazem com que ponhamos uma capa, na intenção inútil de as proteger e eternizar.

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