sábado, 26 de setembro de 2015

Vida


Ela cheira a gordura e a suor.
Sai para a rua e senta no meio fio para fumar um cigarro e apaziguar a vontade de matar o marido.
Olha para cima, para o prédio cheio de vidraças e vê uma aberta onde uma homem e uma mulher estão começando a se amar.
Ela traga.
Ele acaricia um seio, ela fecha os olhos.
Lá chove.
O cigarro se apaga, o amor começa enquanto ele recebe a notícia da morte do filho.
Ele já havia morrido mil vezes, mas agora já pode se enterrar enquanto neva onde ela chora pelo emprego perdido e o excesso de peso.
O sol brilha.
Eles perdem a vida ao virar uma curva, ela nasce, abre os olhos para olhos que se enchem de emoção e lágrimas.
Eles assistem à televisão, ele mata e pica quem lhe roubou o ponto de venda enquanto ela debuta vestida de branco e rosa.
A novela acaba e todos suspiram.
Enrolada nas cobertas, em um dia iluminado, ela se recusa a ver o mundo na noite estrelada onde ele dirige vendo o mar em busca da felicidade que é sua.
Ela não tem idade para sentir medo de mãos conhecidas em seu corpo, mas esquece um pouco de respirar naquele quarto pequeno e escuro ao mesmo tempo em que ele prende o ar em um salto que é parte de um sonho de poder voar.
Ele caminha os últimos passos na fome e na miséria, ela caminha os últimos passos depois de tantos excessos.
Ambos tem raiva de tudo que sobrou e faltou, ambos tem tanta falta e tanto excesso.
Ela embala o filho e canta uma canção tão linda na madrugada onde não importam as horas, a mesma madrugada em que ela larga enrolada em mantas rotas uma canção nunca cantada que adormecerá para sempre no frio da noite e do abandono.
No mesmo momento em que ela se culpa por não dar tanto carinho, ele recebe nos braços de outra.
O avião mergulha em um voo cego onde cento e oitenta pessoas jamais verão novamente a cor do céu e onde cento e oitenta baleias rasgam o oceano em busca de paz.
O dia nasce.
Morre.
Ele ama, ela odeia.
Ele mata, ela trabalha para preservar a vida.
A crueldade sangra inocentes.
Inocentes salvam a bondade.
Lições são aprendidas.
Almas restauradas.
Aqui.
Lá.
Tarde.
Cedo.
Nunca jamais.

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