sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Bengalas e Pontes
Nos vemos naqueles momentos em que o caminho que trilhamos repentinamente torna-se desconhecido, desconfortável, mas ficar parado nunca foi uma boa opção, então seguimos com o coração apertado e a mente inquieta com o que está por vir.
Nem sempre é o caminho, mas nós mesmos que o percebemos de forma diferente e ele passa a ser desconhecido pela falta de flores e paz que outrora existiu.
E vamos dando nossos passos naquela trilha de repente selvagem, com ameaças que se esgueiram, principalmente à luz do luar, onde sombras se tornam monstros que assombram o nosso descanso noturno.
E quando não é ainda hora de correr, pois correr vai nos tirar a força de que precisamos para analisar os desvios e os obstáculos, nos agarramos à pedaços de pau que nos servirão de amparo às pernas cansadas. Nos agarramos à conversas com árvores e bichos para não sucumbir ao desespero da solidão e criamos toda a espécie de subterfúgios para aliviar os ferimentos que uma jornada em terreno inóspito pode ocasionar.
Ou podemos ir em busca das pontes que nos levarão à outro lugar.
Talvez parecido, mas não mais o mesmo depois de ter sido interrompido por águas que o obrigaram a se modificar.
As bengalas, a abstração da realidade dolorida com recursos que estão naquele momento à nossa disposição são formas válidas de conseguir se manter forte em uma jornada que se tornou adversa.
Porém, elas podem aliviar enquanto temporárias, enquanto não estivermos prontos para ter a coragem de, finalmente, ir em busca das travessias.
Se forem um recurso permanente na intenção de retardar para sempre as dores de uma mudança, podem se tornar hábitos destrutivos, infelizes, obsessivos e auto destrutivos. Podemos nos tornar pessoas destrutivas, infelizes, obsessivas e auto destrutivas também.
Os recursos no alivio da dor são válidos quando vemos neles uma forma de aplacar a dor de uma caminhada difícil, mas são inúteis se, na dificuldade, não tivermos o discernimento de perceber que o trajeto será para sempre o mesmo enquanto não tivermos a coragem de atravessar.
Ou não.
Pois existem atalhos, bifurcações e curvas que nos tiram das pedras sem nos tirar do caminho.
Nos levam de volta à ele, mas em um cenário diferente, onde o próprio trajeto se torna diferente e onde os tropeços do passado nos fazem perceber o quão o caminho é gostoso de percorrer, afinal de contas.
E podemos não mais querer as pontes, mesmo elas existindo para sempre.
Mesmo sabendo que elas são feitas para atravessar.
O que é preciso, afinal, é sempre se engradecer, se regojizar e ser feliz na nossa caminhada que, um dia, chegará ao final.
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