quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Quem nos Devora
Muitas vezes, sentimos que nos foi tirado algum pedaço.
Que somos vítimas de situações e pessoas que nos machucam e nos fazem sangrar.
Nossa pele se dilacera em mordidas de dentes invisíveis, o tecido amolecendo e soltando-se, expondo a carne frágil que sempre tentamos proteger.
Porém, predadores não se aproximam sem alguma forma de encorajamento.
Pode ser o cheiro da fragilidade, da ferida exposta e não curada, do abandono e da solidão, do extravio em meio à manada.
Pode ser a percepção arguta da vulnerabilidade, da carência e da falta de cuidado e amor para conosco.
Não somos atacados mesmo se, sem querer, não exibirmos membros fragilizados e incapazes de no coice se defender e na corrida fugir.
E temos que entender que a culpa não é daquele que morre de fome, mas daquele que torna-se presa fácil ao abaixar a cabeça ou procurar o pasto em uma savana repleta de leões.
Uma corça não pode ser a melhor amiga de um leopardo e se o faz é na intenção inconsciente de entregar a sua vida, com surpresa e horror, às garras que lhe surpreendem em uma surpresa quase esperada.
Somos os culpados ao sermos devorados.
Em algum momento resolvemos baixar a guarda e as orelhas.
Em algum momento nos foi conveniente beber na água onde nadam os crocodilos.
Nos foi sedutor correr ao lado dos guepardos e hienas.
E se agora a nossa respiração está se extinguindo, o nosso coração está enfraquecendo e o nosso pescoço está sufocado por presas, talvez seja a hora de simplesmente aceitar.
Fechar os olhos.
Distensionar os músculos.
Para na força da aceitação de que estamos prestes a sucumbir, possamos reabrir os olhos, reerguer o corpo, escoicear o mal que nos aprisiona e correr.
Evitando para sempre os lugares onde é mais fácil morrer.
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