sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A Coisificação das Pessoas


Acho muito, mas muito interessante observar como as pessoas se coisificam.
Explico.
Tem uma rapaz que é porteiro do clube onde jogo tênis.
Porém, ele começou no clube cuidando da manutenção das quadras, ligando luzes, molhando, passando o escovão.
Uma rica de uma pessoa, sempre tinha uma piada pronta, me chamava pelo nome, fazia questão de me acenar, mesmo de longe.
Pois bem, há alguns meses ele foi promovido a porteiro.
Deixou de lado as roupas rotas e sujas de pó de tijolo e passou a vestir uma reluzente, engomada e branca camisa social e mais uma elegante calça escura.
Virou outro homem.
Coisificou no novo personagem e não me cumprimenta mais.
Parado, de rádio transmissor em punho, eleva a cancela para meu carro passar e me olha com um olhar de Donald Trump, indicando a passagem.
No seu tosco entender, a promoção o fez diferente, o colocou em um patamar que merece um comportamento frio, duro, formal e besta.
Ele se entregou à coisa, despersonalizou sua conduta e se vendeu para a ilusória sensação de que é outra pessoa.
Ele não é outra pessoa, é a mesma, porém em um trabalho melhor.
Outro exemplo.
No momento em que as pessoas entram nos seus carros, elas viram o carro, não as pessoas dirigindo um. 
Porque se coisificam em Honda, Chevrolet e Fiat e saem cortando outros Honda, Chevrolet e Fiat como se todos fossem apenas carros e esses apenas competem, ultrapassam, dão fechadas e disputam espaço nas vias da cidade.
Esquecem a educação, o bom senso, a gentileza, pois estão protegidas pela carcaça de lata e pela ilusão de que podem ser as péssimas pessoas que devem ser no dia a dia, simplesmente porque estão coisificadas em lataria.
Se em uma fila de banco fizessem o que fazem no trânsito, iriam ser consideradas lunáticas.
No Facebook não é diferente e muitos não postam, viram as postagens.
Não interagem com os supostos amigos, não curtem quase nada, não comentam, pois viraram links, fotos, quadros de auto ajuda, dicas, filmes de receitas e de comidas. 
Não estão ali para ser relacionar virtualmente, mas para postar, postar e postar, muitas vezes até sem nem dar a mínima pista de que existe um ser vivo por trás de cada publicação. 
E nos esportes amadores não faltam exemplos.
O cara começa a correr. 
Vicia, pois corrida vicia.
Começa a competir, ter grupo de corrida.
Pronto. 
Parou de correr, virou a coisa corredor.
Não sai de casa sem os tênis Asics, sem a camiseta da última prova feita, sem os óculos e a viseira da hora e toda a marra envolvida.
Não considera corredor quem não faz o tempo tal ou usa a meia tal, considera pessoas que gostam de correr, mas não sabem correr.
E deixo claro, não estou falando de profissionais.
E por aí vai.
É bem pertinente lembrar que não somos nossa casa, nosso carro, nosso trabalho, nossas roupas e nossos bens ou o nosso lazer, estamos vivenciando tudo isso, usufruindo de coisas e não nos tornando as mesmas.
Mais pertinente ainda é lembrar que somos seres vivos enquanto respirarmos e nesse ínterim, tudo é temporário, passageiro e transitório.
E que hoje é uma coisa e amanhã é outra.
Então, não é aconselhável se prender e se transformar em isso ou aquilo.
O que interessa, na verdade, é conseguir passar por aqui tendo tido as melhores interações possíveis, a melhor vivência, sem se prender à rótulos, imagens ou condutas que nos definam como coisas.
Pois nossas melhores lembranças sempre nos remeterão às pessoas.
E é o que somos apenas, no final das contas.

Um comentário:

  1. Ė bem assim Monica! Parabėns pelo texto. Infelizmente o ser humano estå cada vez mais materialista e sendo um personagem de si mesmo. Muito triste! Valeu...

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