domingo, 1 de julho de 2012

Cheiro

Cheiro pra mim, é quase tudo. Mergulho na minha infância, transito pela minha adolescência, redescubro amizades que pensei amores, volto ao colo que nunca mais tive, apalpo, de olhos fechados, minha coleção de bichinhos de borracha que cheiravam tão bem. Lembro das massinhas coloridas e dos desenhos na TV, de manhã bem cedo, que tinham cheiro de torradas com manteiga derretida. Fico cega e muda quando inspiro minhas saudades. Fico absurdamente feliz em inalar a minha vida na roupa quente saída da máquina de secar, no blusão imenso que dobro com carinho e guardo, no perfume noturno das flores de verão, nos cabelos que beijo, nas peles que conheço, no aroma característico da minha casa, quando entro. Me envolvo em cremes adocicados, ligo insensos o dia inteiro, tenho sachê no meu carro e palitos perfumados espalhados em cada canto que habito. Não vivo sem perfume e me encantam as pessoas perfumadas. Me encontro em um cheirinho de bife passado, lenha na lareira, pão no forno, vinho tinto, chuva forte, café passado, protetor solar. Cada cheiro da minha vida é uma tatuagem esculpida na minha lembrança, é uma mensagem gravada na minha existência e tem o poder de me fazer reviver como se o tempo voltasse para trás. Cada fralda aberta, cada folha de mimiógrafo, cada esmalte, batom, beijo, ar salitrado da praia, livro novo, lápis de colorir, estojo de plástico. Cheiro pra mim, é quase tudo. Só não é tudo, porque olho, toco e ouço cada pequeno aroma que faz meu coração bater mais forte.

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