A menina que retornou do exterior, de uma temporada de estudos, passa pela frente da minha casa, sorrindo. Eu penso: essa vai longe. Mas como o meu pensar é inquieto, já tratei de levá-lo para outro caminho - ir longe, aonde? O que é, exatamente, ir longe? Pensei nos pais dela, com profissões normais, vida normal, familia feliz, dinheiro para poder mandar os filhos estudar fora e para poder fazê-los "ir longe". Eles pensam que transgediram a forma miserável de tantos viveres e chegaram lá ou lhes passa pela cabeça que poderiam ter ido além? Até aonde queremos ir, para podermos nos considerar pessoas que alcançaram este "longe" tão relativo? Se temos uma familia linda, queremos uma profissão, se temos uma carreira, queremos bebês rechonchudos e desdentados, se temos uma casa, queremos uma maior, se temos dinheiro, queremos um amor. Queremos escalar montanhas, ser campeões, doutores, mestres, pais exemplares, idosos com saúde, mulheres que aparentam menos idade, homens com virilidade eterna, ter carros do ano, sucesso, prestígio, amizades verdadeiras, compreensão, justiça -ufa- paz. Já vi pessoas resignadas e felizes com a própria vida, satisfeitas e plenas, mesmo com o pouco que atingiram, mas para elas, muito e suficiente. Ouvi essas pessoas serem chamadas de medíocres pelos outros, acomodadas, preguiçosas.
Tenho uma lista, nada longa, de coisas que gostaria de ter feito ou de vir a fazer para me considerar uma pessoa, digamos, mais realizada. Não falo de sonhos, pois estes devem ficar para sempre resguardados no nosso coração, nos impulsionamdo vida afora. Falo de pequenas realizações que complementariam a minha felicidade e me levariam um pouco mais adiante. O problema será eu não reconhecer o quão longe cheguei e, novamente, sair a procura de algo que nem eu mesma sei o que é.

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