segunda-feira, 2 de abril de 2012

Dois Mundos

Cometemos vários erros ao nos tornarmos pais, mas considero dois deles os principais: esperar que nossos filhos sejam iguais à nós e que sejam iguais entre si, se tivermos mais de um. Sou mãe do sol e da lua, da explosão e do silêncio, da euforia e da contenção. Vivo em um delicioso mar de palavras, de histórias contadas em meio à gestos, mas também sou parte do sossego, da vida levada mansa e discreta atrás de uma porta que esconde vidrinhos coloridos de perfume, livros diversos, sapatos organizados por estilo, vestidos com estampas de bichos. Sou deliciosamente invadida por abraços e beijos inesperados, apertos de bochechas como se fosse eu criança, carinho explícito, escrachado. Mas sei também entender o amor escondido na brincadeira discreta, no convite para o cinema, para dividir a opinião de um vídeo. Tenho o privilégio de transitar por dois mundos, cada qual com sua beleza, dificuldades, nuances. Sou a observadora voraz de seres humanos que se encaixam na vida, fazendo dela o lugar mais habitável possível, dentro de cada expectativa, sonho, ilusão. Dentro de cada reação que virou jeito, depois de ter sido experiência antiga. Aprendi a ser duas mulheres, a ser duas felicidades, dois corações que não esperam recompensas, nem retorno, tampouco garantias de receber o que dou. A única coisa que espero é que esses dois univesos, que em mim já habitaram, sejam plenos e felizes, mesmo que, um dia, eu seja apenas a estrela distante que brilha longe em cada um dos seus céus.

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