quarta-feira, 25 de abril de 2012

Mar de Sereias

De vez em quando minha alma fica indócil. O corpo está bem, com saúde, a vida acontece sem maiores percalços, o sol está lá fora. Mas ela fica me dando sinais de sua inquietude nos momentos mais banais, na fila do banco, na direção do carro, no silêncio da casa. Ela me pede algo que não sei o que é, mas sei que ela está de joelhos e não consigo entender. Como vou entender se apenas o que ouço ela dizer é que tem vontade de planar serena por entre um céu estrelado para esquecer um pouquinho desse corpo que a carrega? A rotina fica mais difícil e qualquer atividade do dia a dia fica mais demorada, pois alma inquieta pesa mais. Converso com ela e conto que hoje vi uma conhecida de lenço na cabeça raspada, por causa da quimioterapia e que, isso sim, é para se desesperar. Mas alma não racionaliza, sente. Alma não é como corpo e mente. Alma voa nos sonhos para lugares desconhecidos, conhece pessoas de outro mundo, mergulha em mares com sereias, olha cidades inteiras através das nuvens. Alma sente desconforto e chora, mesmo com o corpo sorrindo. Ela não aparece, mas espia um poquinho pra fora, através do olhar. A sede dela não é de água e, por engano, a gente envenena o corpo para tentar matar uma fome que não compreende. Por isso é tão difícil entender nossa alma, ainda mais quando ela fica assim, indócil. Para entendê-la temos que, às vezes, fazer coisas difíceis de se fazer. Temos que ouvir, sem existir som, enxergar sem ver uma imagem, alimentar sem alimento, acariciar sem ter contato. E quando nada disso dá certo, eu fecho os olhos e ponho meu corpo para dormir para minha alma poder acordar.

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