quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Precisamos Sorrir


Há três anos eu estava fazendo uma viagem de sonhos.
Primeiro, por estar com toda a família, coisa rara hoje em dia, pois filhos crescidos pousam em ninhos diversos.
Segundo, por estar em um dos lugares de que mais gosto, onde moram o sol, a praia, a civilidade, os cenários paradisíacos e as várias opções de lazer. 
Estando tão perto, não poderíamos deixar de visitar a Disney World.
Pois lá a gente perde a memória de tudo que é ruim.
De cem bocas, noventa e oito estão sorrindo e as outras duas, comendo.
Em uma das suas diversas lojas, conheci um enfeite para antena de carro do qual me apaixonei. 
Cabeças de Mickey e outros diversos personagens que servem apara arrancar a seriedade de um monte de lata, através de um pequeno orifício que se encaixa.
Não comprei, pois minhas filhas me convenceram de que eu iria aproveitar pouco a minha diversão, pois as mãos do nosso país são rápidas em retirar a alegria alheia.
Foi um dos raros momentos que deixei de sorrir.
E hoje me arrependo de não ter comprado, mesmo assim.
Três anos se passaram.
E estou tratando da minha vida,  tentando evitar ao máximo os pensamentos pessimistas oriundos de um cenário horroroso de roubos, mortes, assaltos, injustiças, atrocidades, corrupção, crise econômica.
Estou tentando atravessar a rua em um semáforo aberto para mim, onde os carros não param.
Estou com o dinheiro recebido do trabalho escondido debaixo do sutiã e com medo de ter o dedo arrancado por causa da aliança de casamento.
Estou chateada, pois acabei de ser dispensada de um trabalho que eu amo, pois a crise me considera mão de obra supérflua.
E vejo o personagem do desenho Frozen balançar intrépido na antena de um carro que vai entrar em uma garagem.
Impossível não se emocionar.
Me enchi de um alegria tão genuína quanto infantil, aquela alegria de criança que não tem previsões ruins de futuro e que só vê coisas boas no ato de crescer, pois sabe que vai poder aprender a andar de bicicleta, vai poder entrar no mar sozinha, aprender a jogar futebol, um dia dirigir, namorar, ir no cinema e nas festas.
Ela, criança que é vendada para a tristeza futura assim como os animais que não sabem que um dia irão morrer.
O dono do carro tem a mesma sede imensa que sinto de poder brincar com a dureza da realidade para poder respirar sem que lhe doam as entranhas.
Porque se nos enrijecermos demais, acabamos quebrando.
Se olharmos só para os cinco mil bois afogados no transporte de navio, o desmatamento, o aquecimento, se ouvirmos só as asneiras da energúmena que preside o nosso país, se focarmos no ruim e alimentar esse ruim com a energia da nossa raiva, vamos morrer atualizados e secos. 
Vamos adoecer de alma e de corpo e nada vamos poder fazer exceto estar por dentro de tudo e ocos por dentro.
Se sofro com tudo isso? Muito.
Quando o cadeado que aperta o meu peito ameaça explodir o meu corpo, trato de achar enfeites em antenas de carro.
E faço delas o meu remédio para dor.
Faço delas a minha esperança ao ver que ainda se enfeitam os carros com a ilusão bonita de uma criança que repele um futuro escuro por mais provável que ele possa ser.
Caso contrário, ela se impediria de crescer.

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