sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Menininha Raiva
Às vezes eu queria dar um pé na bunda do mundo.
Mas daqueles bem dados com direito à lábios e olhos cerrados para a mira ser certa.
Acabar com esses filmes de terror que ele me manda ver quando eu esperava ver somente filmes de amor água com açúcar.
Porque esse mundo é perito em bullying, cutucando a minha paciência, botando elásticos no corredor e morrendo de rir enquanto a minha cara bate no chão frio de linóleo.
Eu queria pegar esta horda de alunos que cabulam aulas, que empurram os colegas e colam nas provas, que batem nos fracos e levantam as saias das meninas e levá-los direto para que o Diretor os avermelhasse as mãos com palmadas.
Não que eu seja uma santa, não senhor, pois também falo mal dos outros alunos e estudo menos do que deveria, mas tento ser o melhor possível.
Faço os meus temas, compareço nas provas e acho (não sei bem ao certo) que ando repetindo anos, caso contrário eu já estaria na faculdade ou, quem sabe, graduada.
Por isso não posso julgar toda essa bagunça, pois sou parte dela.
Até me fantasio nas festas de fim de ano e dou beijinhos no rosto daquele que derrubou de propósito a minha mochila.
Tudo para parecer normal, pois se a metade dos alunos soubesse o que penso me bateriam na hora do recreio até eu perder os meu dentes e o resto da minha consciência.
O Diretor é o único que sabe que não me encaixo, pois nem a minha mãe sabe.
Ele conhece os desenhos que guardo no fundo da classe, aqueles cheios de flores, de animais que sorriem, de mãos dadas, abraços e finais felizes.
E ele me olhou sorrindo quando os descobriu, como se sorri quando um bebê solta gases, para dizer em seguida "trate de aprender as lições, criança, elas são duras, difíceis, eu sei, mas tudo vai fazer sentido quando, um dia, você jogar o seu capelo para cima."
Saí de lá puta da cara.
Sempre essa hora.
Essa formatura que todos ficam falando.
A hora em que finalmente eu vou saber que tudo, mesmo a porcaria toda, valeu a pena.
Cada hora, minuto, ano de estudo, de aula prática, essa coisa toda que eu dividi com quem segurou a minha cabeça quando vomitei todas as doses extras.
Esses que vou olhar nos olhos quando essa coisa capelo estiver no ar.
E vou querer dizer, eu acho.
"Foi você, vocês que me fizeram aguentar até o final. Além do Diretor, é claro, que foi tolerante demais ao me engolir sem me expulsar, mesmo quando eu quis dar um pé nessa bunda de mundo e ele veio sorrindo como o dono que vê o seu cãozinho fazer xixi no tapete, mas sabe que o tapete é o de menos.
Pois não importa a bagunça.
Nem a minha revolta com os colegas.
Mas o que serei depois da formatura.
E tudo o que aprendi até aqui.
Sem mais.
Obrigada."
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