domingo, 11 de outubro de 2015
Assumi os meu cachos.
Ela sofria há um bom tempo de um tipo de maus tratos tão eficiente quanto um tapa no rosto, mas menos perceptível e tão dolorido quanto.
Ou mais.
Era a anulação afiada e discreta de tudo o que ela era.
Depois de uma separação conturbada foi nele que ela encontrou um ancoradouro para aportar e descansar das ondas calmas e solitárias de estar navegando sozinha.
Mas aos poucos perdia em si coisas que não sabia definir, apenas buracos incômodos se formavam e ela os preenchia com os desejos dele.
Se tornou uma imagem projetada, com falhas que eram criadas todos os dias, compensando as que ela pensava terem sido restauradas.
E as exigências não vinham na forma de acusação, vinham na forma de elogios à tudo que as outras possuíam e que não fazia parte dela.
Então, ela quis ter tudo das outras e ser tudo na intenção de aplacar a fome insaciável de não se pertencer.
Se vestia para agradá-lo.
Passou a pintar de vermelho as unhas e maquiar o rosto.
Começou a fazer dieta.
Tomava banhos de sol e alisou os cabelos.
Falava pouco com as amigas, deixou o gato na casa da mãe, esfolou os joelhos nos ladrilhos da cozinha enquanto polia o chão.
Começou a frequentar a academia e consumia litros de suplementos para definir os músculos.
Assistia filmes de tiroteio e documentários sobre esportes radicais.
Parou de tocar violão e sentia vergonha de não comer carne.
Até o dia em que ficou doente.
Doente por dentro.
E descobriu que estava permitindo que essa doença a consumisse na ilusão de que o amor era algo que não lhe pertencia.
E estando com quem a maltratasse, teria o aval para não merecer ser amada jamais.
Foi com terror e surpresa que ele encontrou uma linda mulher crespa, de mãos livres de esmalte, aconchegada no sofá com seu gato cinza aninhado nas pernas.
Foi sem se levantar das mantas bordadas de flores que ela ouviu ele recolher suas coisas, embalar a própria doença e colocá-la na mala.
E as pessoas passaram a dizer que nunca a tinham visto tão bonita e ela apenas respondia "assumi os meus cachos".
E em uma noite, sozinha, assistindo algo romântico na TV, tragando o cigarro que se consumia e sorvendo cada gole da taça de vinho, descobriu que estava pronta para amar.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário