quarta-feira, 14 de maio de 2014
Vende-se Honestidade
Eu e uma amiga andamos muito preocupadas com a nossa vida profissional.
Almoçamos toda a semana e a conversa desliza, tocando em cada nervo exposto que é a fragilidade humana, a existência com suas alegrias e complicações. Muitas vezes regada à vinho (nesses dias os garçons nos convidam para tomar um café, por favor, pois já passam das três horas, se não for incômodo), essa conversa dilapida um pouco mais a minha alma e a dela e saímos prontas para enfrentar a próxima caça às bruxas da nossa rotina.
Mas, como disse no princípio, andamos preocupadas com a nossa vida profissional.
E hoje vislumbramos uma ponta solta, aquela, a principal, que nos impede de avançar.
A falta de malandragem.
Porque nesse país, quem não é malandro não se cria, só cresce o pouco que pode para não morrer à míngua.
Se não empurrar um ou outro irmão para fora da área onde as tetas jorram leite, fica de fora, chupando o dedo da honestidade.
E eu não consigo ser malandra. Não sei me vender, tampouco jogar as minhas qualidades ao vento para, feito confete colorido, enebriar os que gostam de festa e de cores.
Aliás, lembrei de um famoso proprietário de academia de ginástica, lá nos anos oitenta e tantos, que dizia para quem quisesse ouvir: "Olha lá como ela está velha e acabada, mas vou jogar um confete, que isso vende." E vendia muito, tanto que ficou famoso e com bastante dinheiro.
Também lembrei de um amigo que me disse fazer parte pisar em um ou outro para poder subir um degrau ou dois na escala profissional.
Vou ter que nascer de novo, então.
Sou britânica nos horários, chiita na honestidade, neurótica com deveres. Quadrada, no melhor estilo germânico.
Não gosto de pensar que nasci para ser trouxa, mas abomino pensar que nasci para ser malandra.
Acredito de todo o coração que o caráter não pode ser medido em apenas uma conduta, mas em todas.
Sou excelente marido, pai, cidadão, vizinho, amigo mas puxo um tapete que outro no trabalho.
Roubo a ideia, o mérito, o troco de alguém, mas ora vejam, é para dar o melhor para a minha família.
Não.
Não vivo plenamente sem um órgão do corpo e não viverei plenamente com uma única atitude que fuja do que defino como justa.
Eu e uma amiga andamos preocupadas com a nossa vida profissional.
Mas conseguimos rir muito (não dos outros), dormimos bem e acreditamos que tudo vai melhorar.
Porque acreditar que a vida possa ser como deveria, nos faz menos ricas, mas mais leves e felizes.
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