sexta-feira, 16 de maio de 2014

Hoje é sexta e daí?


A primeira vez que botei os meu pés em um salão de beleza eu tinha 18 anos.
Fui fazer um permanente para acabar com a chatice de um cabelo liso escorrido.
O nome de verdade dela eu soube, mas não lembro porque era algo chato como Maria de Fátima. Difícil de considerar um nome próprio, mas apenas uma prova de fé da mãe para com a santa.
O nome que ela usava era Pereca, esquisito, mas marcante e nunca soube o porquê desse apelido inusitado. Mas soube um monte de coisas dela antes dela ir embora em seus tenros quarenta e poucos anos, vítima de um aneurisma.
Ela era simplesmente linda. Olhos azuis que perfuravam quem os olhasse, tamanha transparência e luminosidade, olhos de gato. Alta, esguia, cabelos que caíam em cachos perfeitos, dourados, sedosos e maleáveis. Eu queria ser como ela, depois dos quinze anos que nos separavam.
Até os meus trinta e dois anos ouvi e falei coisas que só se fala para quem mexe nos nossos cabelos.
Ela era mãe de uma menina e de um menino. O menino era vítima da Talidomida e não tinha metade do braço direito. Lindo menino triste.
Ela, inconscientemente, se culpava.
O marido era também lindo, jovem (mais do que ela) e muito infiel.
Ela mexia na minha cabeça ao som de Enia, gostava de brigadeiro no lanche da tarde, fumava e me dizia: 
"Tem que existir alguma coisa, além dessa merda toda."
E era essa Alguma Coisa que fazia ela sorrir para suportar o castigo de ver o filho escondendo o braço no moletom, o marido sumindo na madrugada.
Sempre temos Alguma Coisa.
Porque desde o momento em que nascemos, somos solitários em todas as nossas angústias.
Estamos em uma faculdade e cada prova ou teste responderemos com a nossa caneta em punho, sentados na nossa classe, interpretando questões dificílimas para nós, fáceis para os outros, iguais, mas recebidas de forma diferente, de acordo com o jeito que dormimos, o nervosismo, a pressão, a história de cada um. E provas horríveis. Aquelas que nos fazem perder o ano. Os anos. Quase uma vida.
Então, temos a fé. 
O incenso, a yôga, também a fé.
Tantos, o conforto de se ver com o conforto de bens materiais, de status.
Alguns, matando galinhas, fazendo sacrifícios em prol de sacrificar à si mesmo, que é bem mais difícil.
E tem os que tem as promessas de sextas feiras regadas à alguma coisa que não se tem, mas se agarra feito tábua em enchente.
Mas somos sozinhos no nosso sofrimento e nas nossas tarefas e provas.
Acredito que exista Alguma Coisa Além Dessa Merda Toda, mas não vamos descobrir aqui. Nem agora.
Para mim, que escolheu um professor que só fala quando estou pronta à escutar, sei que me formar não será nada fácil, mas sei que na dureza das questões difíceis, existe a intenção amorosa de ensinar.
Tanto que a hora do recreio é cheia de piados, de flores, de bichos, de abraços e beijos melados de filhos, de sol quente na pele, de suor, de vento, de retratos pintados em cada pôr do sol, em cada mar rebelde e céu estrelado.
De reconhecimento.
Para quem espera que tudo acabe depois de jogar o chapéu para o alto, boa sorte.
Eu pretendo encontrar a Pereca, algum dia.
E até vejo os olhos de gato me olhando e a pergunta se formando nos lábios imensos:
"Tu sabia que existia Alguma Coisa Além Daquela Merda Toda, né? Pois se prepara que Ele te reservou uma vaga de estagiária."
Vou rir, eu acho. E bufar um pouco.
E perguntar:
"Mas no Sábado tem folga? Se tiver, na sexta vou me esbaldar."

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