terça-feira, 20 de maio de 2014
Amanhã
Daqui para frente eu quero ser mais feliz.
Eu penso que tenho esse direito, visto que não tenho mais a metade da minha vida pela frente.
E se tiver, não acredito que seja vivida de forma plena, pois não vou conseguir sair por aí, correndo com meus tênis Nike beirando os noventa.
Por isso, daqui para frente mereço o maior presente que se pode dar à si mesmo: se escutar com carinho.
Já escutei mãe, pai, professor, marido, amigo, filho.
Deixei de falar incontáveis vezes para não ferir, não assustar, não desrespeitar, não contestar, não polemizar.
E desenvolvi uma capacidade absurda de me fazer muda no intuito de ter paz.
Mas as vozes interiores começam a falar tão alto depois de uma certa idade, que a paz só é mantida se às escutarmos.
Não é questão de ferir, assustar, desrespeitar, contestar, polemizar.
É questão de pegar a alma no colo, vasculhar seu corredores escuros, faxiná-los, abrir as janelas trancadas e deixar entrar o ar.
Para não sufocar.
Para não se tornar uma versão zumbi de si mesmo. Ou uma versão cruel.
Que se judia comendo demais, se medicando demais, bebendo, fumando, se matando nos exercícios, no trabalho, na fuga que não encontra trégua, mas que azeda a nossa versão leve que existiu em alguma lugar, há poucos ou muitos anos atrás.
Eu ainda não sei como vou cavar mais em busca de algo que julgo ter.
Pode ser que eu nem precise.
Pode ser que apenas no ato de me escutar, eu perceba que posso ser mais feliz apenas vivendo mais da mesma felicidade que tenho.
Mas para descobrir preciso parar.
Acariciar o que sou.
E escutar.
E, quem sabe, mudar.
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