segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sempre Acreditei em Sereias


Aos quatorze anos eu me achava meio diva, meio demais, meio Última Bolacha Recheada do Pacote.
Muita gente dizendo que eu era bonita e eu focando no foco errado.
Mergulhando nas piscinas da Sogipa, ao som da Madonna (Cherish) ao fundo.
Se preocupando em passar de ano, ter a pele bronzeada, os cabelos compridos e em se vestir bem.
Tinha um palco imaginário ao fundo, onde todas as minhas qualidades não reconhecidas pelos meus (um pouco distraídos) pais seriam  postas no foco do binóculo de algum Anjo Milagreiro disposto a alimentar melhor alguém acostumada à ração de peixe. 
Então eu seria livre daquele confortável, porém hostil, aquário tão bem iluminado com uma luz artificial.
Porém, a minha salvação era a imaginação de alguma outra prisão qualquer.
Onde dotes (não qualidades) valiam moedas de ouro.
Pois uma vez adestrados, até os ursos selvagens jamais serão os mesmos caçadores de salmão de outrora.
Serão cães de pelo marrom, acostumados com o gosto fácil e doce do mel.
Industrializado de preferência, onde a facilidade dispensa a luta.
Baixei a cabeça tantas vezes que esqueci que braçadas em mar aberto podem ser mais perigosas e cansativas, mas nadadeiras atrofiadas pelo espaço limitado, podem matar.
Me disseram que mergulhos profundos não me trariam liberdade, mas risco de se perder na imensidão de muitas águas.
Cresci com medo.
De quase tudo.
Até de crescer.
Amadureci com a ansiedade dos assustados.
Mas sempre gostei de histórias de sereias.
Aquelas mulheres livres, de seios de fora, que tinham um oceano a ser explorado. 
Amei cada heroína ou personagem de história que burlava as regras dos politicamente corretos na intenção de salvar quem valia mesmo a pena.
E buscando lá no fundo de mim salvar o que eu realmente pensava ser importante nessa vida cheia de opções, consegui fugir do protótipo que esperavam.
Tive alguns percalços, é claro, mas quem não os tem?
Mas recheei o meu interior com coisas bem mais permanentes do que aquela bolacha que eu ameacei ser. Vivi ouvindo o canto das sereias e os rugidos dos ursos e sempre preferi os pés em contato com a terra.
E quando vejo esse monte de peixes lutando para ter todo aquele brilho, aquele holofote girado sempre na sua direção, respiro aliviada.
Já não tenho mais um aquário colorido e perfeito como prisão.

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