sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Ponto a Ponto
Já me costurei tantas vezes. Quando os pedaços quase soltos ameaçavam desfigurar o conforto de ser inteira.
Já me refiz em tantas esculturas, depois de ser bloco inteiro pronto para ser esculpido e virar a forma que mais combinava com o ambiente da minha vida.
E nesses processos doloridos de recriação, onde a mudança foi costurada com a linha que estava disponível, onde cada massa foi dedilhada à ponto de se tornar forma, tive que buscar feito artista aquele gole d'água para recuperar as perdas do suor.
E a minha fonte é tão variada, simples, porém tremendamente eficaz.
Tenho cheiros tatuados na minha memória que me remetem à momentos tão vívidos que sou capaz de fechar os olhos e viajar.
Não que as pessoas, lugares, objetos, comidas, donos dos cheiros, fossem algo espetacular.
Mas o momento em que o cheiro se fez abraço, ele se tornou a minha pequena boia na imensidão de um oceano turbulento e pronto para me engolir.
Esses cheiros que me salvaram (e salvam) tanto... aquele perfume Stiletto do Boticário, o cheiro de bonecos de borracha (daqueles de cartelas), de folhas queimadas na churrasqueira, o cheiro de um livro novo, de um cigarro de cereja (ou daqueles gudang), cheiro de sauna com eucalipto, de piscina, de pele exposta ao sol, do Giovanna Baby (perfume mais antigo do que eu), de óleo de Urucum, de Boa Noite ( aquela fumaça pra espantar mosquito), de protetor solar.
São tantos.
São tantas as formas de se salvar.
De se costurar.
E que nos sirvam para reacender a lembrança de que apesar de tanta coisa, temos tantas fotos, cheiros, lembranças que nos faziam sorrir.
E não sorríamos porque tudo era melhor.
Sorríamos porque sempre temos o amanhã.
E a infelicidade é o intervalo entre duas felicidades.
E ela nos espera sempre.
Mesmo que demore.
Mesmo que precisemos costurar alguma coisa.
Alinhavar.
Ou simplesmente fechar os olhos.
E cheirar.
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