sábado, 23 de novembro de 2013

Nosso Roteiro Original


A leitura é umas das diversas maneiras que tenho de me abstrair do Mundo, relaxar e sentir prazer.
Mas gosto de ler mais coisas do que livros.
Gosto de ler gente.
Quando me pego parada em alguma sala de espera, café, aeroporto, banco de shopping, me entrego ao cinema particular do cotidiano, muitas vezes mais interessante do que aquele com atores famosos.
Sentada, com os olhos atentos e a mente vibrando, decupo cada cena, devoro cada gesto, memorizo cada olhar, e saio da experiência diferente, como qualquer filme de ficção.
Nas cenas vejo drama, comédia, sofrimento, alegria, ingenuidade, malícia. Vejo coisas escritas na linguagem do corpo.
Ontem não foi diferente.
Aguardando uma consulta com atraso de mais de uma hora, me dediquei às artes, à cultura que me deixa tão culta e feliz quanto admirar um retrato de um campo de girassóis.
A velhinha chega. Se apóia na grade da porta e prescruta o ambiente de cadeiras todas ocupadas. O menino de alguns dezesseis anos logo se levanta ao avistar a senhora com dificuldades motoras (o restante do elenco finge não ver.) Bom menino, deve ser o mocinho da trama. 
A figura que estava longe do campo de visão da platéia, adentra amparando o corpo rechonchudo, porém frágil. 
O filho.
Parecido, mesmos olhos azuis. Emana tristeza e desesperança no corpo magro de uns sessenta anos. A vítima (pelo menos ele se escolheu assim).
Na cadeira desocupada pelo herói, acomoda a mãe, que já é filha. Ficam ali, parados, sem palavras, sem nada.
Minutos se passam onde cada personagem finge não ver quem está ao lado, onde perfumes doces e cítricos se misturam no ambiente pequeno, onde sussurros são vento que sopram no meu ouvido.
O interfone mais uma vez grita. A porta se abre e vejo na hora que é a filha. Idêntica, exceto pelos olhos, que são castanhos.
Vem como mãe, encontrar as mãos enrugadas, acariciar os cabelos ralos, alcançar o aparelho de surdez, sorrir enquanto pergunta quase gritando "está tudo bem?". Se dirige à um irmão que não a cumprimenta, que se mantém sério, seco e intransponível à pergunta sobre os documentos para a recepcionista. Recebe como resposta um desidratado "não".
Não se falam, homem, mulher, um melhor que o outro, mais privilégios, melhor maneira de lidar com a vida, raiva, ressentimentos, indiferença.
E uma mãe. Dependente, idosa, carente que une quem não gostaria dessa união.
Com a chegada da mulher (aquela que tenta consertar tudo), o irmão vai fumar um cigarro na rua, pois o contato dói.
A mãe que agora é filha, é pura abstração e não sabe de quase nada, exceto de que precisa estar ali e que já viveu bastante, sabe-se lá quantas alegrias e tristezas foram suas, teve um marido e pelo menos dois filhos, que depois de dividir uma casa, alguns brinquedos e um ventre, não mais se suportam.
E o filho que a trouxe é o mesmo filho que não quer estar tanto com ela, pois a filha conversa alto e põe a velhinha a interagir com as outras velhinhas e diz que é bom estar ali pra fazer fisioterapia e os sorrisos não cessam, e as mãos que acariciam não param, enquanto os olhos azuis do homem estão virados para a rua ou talvez para os sonhos desfeitos em um passado qualquer.
É a minha vez.
Antes da sair, vejo a última cena da Vida Real.
Uma cena sem fim. Pelo menos para mim.
E como em todo bom filme, vou tratar de tirar alguma lição.

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