sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Nunca dá Tempo
- Mãe!
- O que?
Ajeito a última peça do Dominó colorido que ganhei ontem da mãe, depois que ela chegou do trabalho. Fiz uma fileira linda, com curvas e desenhos e agora que mais nenhum caiu, está pronto o meu quadro de chão.
- Vem ver o que eu te fiz!
- Ah, agora não dá!
- Por favor...
- Duda, eu tenho um monte de coisas pra resolver antes de sair pro trabalho, chama a Valéria.
- Mas o presente não é para ela...
A mãe é a mãe mais bonita que eu já vi. Ela usa as roupas mais bonitas e uns sapatos muito altos. E ela é muito, mas muito ocupada. Eu não me importo...ela disse que tem que trabalhar para eu poder ter as coisas boas que as outras crianças não tem...só às vezes eu me importo...porque eu queria ter as coisas boas que as outras crianças não tem, mas queria ter também a mãe na hora de chegar da escola.
Um dia, a mãe me contou que quando eu morei na barriga dela, ela podia sentir eu me mexer, empurrar e até me virar e eu fiquei pensando nisso até agora. Eu devia sentir o calorzinho dela e ela o meu e eu fazia parte dela, mesmo ela tendo um monte de coisas para fazer.
Parece que o tempo é a coisa mais importante na vida dos adultos. A minha professora vive falando que não vai dar tempo de terminar isso ou aquilo, como se todo mundo na sala de aula fosse morrer. Os meus colegas não tem tempo de vir aqui em casa brincar porque eles tem um monte de aulas de inglês, futebol, judô e sei lá mais o que. O meu pai não vem muito me ver porque ele diz que o trabalho dele faz ele ficar com pouco tempo para outras coisas.
Quando eu crescer eu vou abrir uma Escola de Tempo. Aí vou chamar todas as pessoas que não conseguem ter tempo e vou mostrar que os tempos são diferentes, mas todos eles são importantes. Por exemplo, eu tenho os meus deveres, mas sei que se eu não mergulhar os meus pés na piscina, só um pouquinho, eu não consigo pensar direito e faço tudo errado. O Bolota vive me pedindo carinho e ele me enche um pouco, mas sei que se eu não der um pouco de carinho pra ele, ele vai ficar triste e eu não quero um cachorro triste...
Vou ensinar pros adultos que é bom a gente fazer muitas coisas, mas não só uma, porque a gente pode ficar igual ao meu avô Zeca. Ele pediu desculpas pra minha mãe quando ele estava doente lá no hospital, então, depois, eu perguntei pra ela:
- Mãe, por que o vô Zeca te pediu desculpas?
- ...
Ela secou os olhos com um lencinho, ficou um tempo em silêncio e eu nunca tinha visto a mãe tanto tempo em silêncio.Aí, ela respondeu:
- Porque ele deixou de fazer algumas coisas. Por nunca ter tido tempo.
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