domingo, 15 de setembro de 2013
Eu entendo. Apesar de chorar.
- Alô?
Eu suspiro do outro lado da linha e penso: dessa vez vai der certo, afinal eu não posso querer que todos pensem como penso.
- Oi! Sou eu.
- Oi! Posso te ligar daqui a dez minutos? Estou vendo uma coisa na TV.
Tantas coisas mais importantes do que eu. Como uma página chata de um livro grosso, fui lida com esmero, mas não com amor. Cada palavra foi soletrada no silêncio dos lábios, mas não penetrou no coração.
O telefone toca.
- Já terminou o que tu querias ver?
A esperança de que tudo possa ser diferente embebe as minhas falas em algo que faça deslizar sem retrancas ou ressentimentos as dores das minhas entranhas.
- Já.
Penso em tudo que vou contar, nos momentos bons da semana. Quero que a conversa flua como deve fluir uma conversa de pessoas que se pertencem, não por escolha, mas por laços de sangue.
Mas não consigo começar, pois ela faz tudo naufragar no mar denso e carregado de hábitos que elegem a miséria e a infelicidade como força motriz da vida.
As perguntas são dúbias, maliciosas, as queixas são chaves para a tentativa venal de comiseração. As minhas alegrias compartilhadas passam mais altas do que as nuvens e desisto de dividir.
Não posso querer mudar algo que nasceu estagnado.
Me permito sofrer, embravecer, chorar de vez em quando, mas tenho que aceitar, me resignar com o fato de que essa mudança que tanto quero não me pertence mais.
Posso tentar transformar o que é meu, mas jamais o que nunca me pertenceu.
Sou eu que tenho que equacionar essas fórmulas que me parecem tão absurdas.
Para certas pessoas as verdades jamais podem ser ditas. As alegrias jamais podem ser partilhadas. As vivências excruciantes nunca compartilhadas.
Mesmo elas sendo parte da nossa carne.
Do nosso sangue.
Para elas reservamos a compreensão.
E o afastamento da nossa alma.
- Foi bom falar contigo.
- É, foi bom.
- Um beijo.
- Outro.
Até a próxima dimensão...
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