quinta-feira, 4 de abril de 2013

Palavra


A relação nunca tinha sido boa.
Nem ruim.
Apenas se arrastava em uma nulidade de dias que careciam de perguntas, interesse, sorrisos, colo, abraços, contato.
Ele não sabia direito o significado da palavra pai, pois naquele homem que era de sua mãe, via um parente distante, daqueles que recebe bem em casa e tenta achar nos cantos da sala uma intimidade que nunca existiu.
Fazia um castelo lindo nos desenhos de escola, porém aquele tio estava sempre do lado de fora.
Uma barreira sólida, construída com esmero, a vontade unilateral que separava a criança do adulto imponente, importante, com um silêncio seletivo.
E ele via outros homens não sentirem medo de beijar bochechas pequenas de outros homens e queria aquilo para ele. Sem revolta nem mágoa, apenas com saudades do que nunca existiu.
E dirigiu o carro do ano, conheceu garotas lindas e divertidas, se formou na Faculdade. 
Como fotografias em time lapse, viu a sua vida passar rápido, mas detalhada, com imagens bonitas, felizes, porém soltas, como um astronauta girando no espaço sideral.
Até aquela frase, de palavra errada, surgir na sua página de Facebook.
"Lindas as fotos, Fernando, os meninos estão cressidos e fortes. Parabéns. Pai."
Aquela palavra errada.
Logo o pai que amava a literatura, pesquisava cada dúvida no pequeno dicionário, perguntando à esposa se ela sabia o significado, com um orgulho infantil de ser o detentor de tais tesouros misteriosos.
Imaginou cada dedo retorcido pela artrose digitar aquela frase, a cadeira de couro, presente dos netos pela conclusão no curso de informática.
Seus olhos encheram-se de lágrimas.
Chegava o momento em que aquele homem lembrava de um outro homem, mas estava esquecendo de si mesmo.
Um homem que ele não conheceu filho, antes de ser pai.
E aquele sentimento que nasceu e morreu prematuro, renasceu.
De uma forma diferente.
Com mais força do que ele julgava possuir, pois agora ele não esperava receber nada, apenas dar.

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