Sabemos que o tempo passa rápido, mas a cada prova real dessa verdade incontestável, ficamos estarrecidos. É como se fosse uma verdade absoluta para os outros, porém sempre temos a ilusão de que podemos ter enganado um pouco essa sucessão veloz de dias. Eu me sinto presa aos trinta anos e preciso de boas doses de realidade para ser colocada no meu devido lugar.
Uma delas á acompanhar o crescimento e o desenvolvimento - abrupto?- das minhas filhas e ver nelas a minha juventude refletida.
Foi ainda ontem que eu estava rodeada de amigas, em frente ao espelho do banheiro, passando rímel, com um CD (vinil) ao fundo, tocando minhas músicas preferidas. Hoje, estou aqui contemplando esta cena vivida por alguém que, puxa, pensei ainda estar rodeada de bonecas.
Eu sou mãe de mulheres agora e isso me torna uma senhora madura. Como isso aconteceu tão rápido?
Como assim, não vou mais ter bebês meus nos meus braços?
Não quero abrir mão de toda aquela bagunça louca e linda, cheia de fraldas, mamadeiras, cheirinho de Hipoglós e noites insones que pareciam eternas.Não consigo entender como homens de barba por fazer, entram aqui em casa e não são meu pai ou meu marido, mas amigos ou namorados desses mesmos bebês que deixavam a minha roupa molhada de leite talhado.
Mas aconteceu. Eu envelheci.
De olhos arregalados vejo elas se formarem, viajarem sozinhas, prestarem vestibular, se tornarem o que fui, porém muitas vezes melhor.
Vou ainda pegar bebês meus no colo, mas filhos delas, meus netos.
Sou como um personagem de filme que viaja no tempo e, de repente, se vê no futuro e se surpreende com tudo que foi construído, modificado.
Ainda sou o bebê enrugado, a criança alegre, a adolescente insegura, a mulher no seu auge e a mulher madura.
E percebo essa feroz temporalidade quando descubro que de todas as pessoas que habitei, só me resta uma - e a última.

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